Pensata

Luiz Caversan

10/02/2007

Mães e heróis

Heroísmo, covardia, cobiça, afeto, solidariedade, medo, brutalidade, dor, oportunismo, coragem, racismo, inveja, ilusão e desencanto.

Estes são apenas alguns dos sentimentos que vão se concretizando frente aos nossos olhos à medida que o talento de diretor de Clint Eastwood (inimaginável no seu tempo de Dirty Harry) "passeia" pelo horror-horror da guerra.

O filme "A Conquista da Honra" é de uma linearidade comovente nessa sua intenção de panoramizar a alma humana, que tanto e tão profundamente se revela nas situações limites como a guerra.

A carnificina que no filme dá engulhos já pôde ser vista em congêneres como "Atrás da Linha Vermelha", "O Resgate do Soldado Ryan", "Platoon" e outros.

Divulgação

Mas como o personagem observador e às vezes narrador do que se passa, o marinheiro-enfermeiro Doc, é absolutamente "cool", isso torna possível que se tenha um mínimo de distanciamento para que aquele panorama contraditório listado na abertura deste texto possa ser percebido com clareza e, no limite, até com revolta.

O filme é feito de muitos grandes momentos, mas há um sublime: quando Doc se vê obrigado a aquiescer sinceramente à farsa que se montara em torno da bandeira fincada pelos americanos na ilha de Iwo Jima. Isso ocorre numa cerimônia em que a mãe de um soldado morto lhe pergunta qual, na foto ali exposta, era o seu filho. Acontece que o filho, Hank, não estava presente no momento tornado histórico e heróico; o herói era outro, Harlon, também morto. Mas Doc não tem coragem de espremer ainda mais aquele coração já estraçalhado. Mas cuja perda era compensada pela celebração do filho.

Exatamente o oposto ocorre com a mãe de Harlon, que unicamente por conta de seu instinto materno reconhece o filho na foto, mas a história lhe é negada e não há nada a compensar a perda causada pela demência da guerra, só a angústia e o desespero.

Os sentimentos maternos em geral, e sua nobreza sempre profunda e sempre tocante, permeiam filme e na verdade em alguns momentos o conduzem.

Mesmo diante da obviedade de que existem filhos canalhas, facínoras, genocidas e perversos, a mãe vai sofrer sempre e sempre terá razão, ainda mais como recurso ficcional.

Sabe-se disso assim como é inaceitável argumentos que tentem justificar uma guerra opondo bons e maus, certos e errados, verdade e mentira.

O filme de Clint Eastwood, ao respeitar tão profundamente os sentimentos verdadeiros, permite justamente isso: que se perceba que entre o branco e o preto há uma infinidade intangível de tons de cinza.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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