Pensata

Luiz Caversan

17/02/2007

O bloco dos deprimidos

É Carnaval/ é a doce ilusão/ é promessa de vida/ no meu coração.

Quando surgiram esses versos, 15 anos atrás, o Carnaval ainda era uma possibilidade. De ilusão, de promessa de vida, de alegria no coração. Tratava-se, na poesia dos sambistas da Mangueira, de homenagear o maestro Tom Jobim, no samba-enredo de 1992, "Se Todos Fossem Iguais a Você".

Hoje, aos ver as páginas dos jornais multicoloridas pela estética da chamada folia, do extravasamento, da alegria-que-me-leve-daqui, a interpretação que me surge é outra, exatamente oposta: doce ilusão essa, de que haverá promessa de vida no coração só porque todos estão felizes, ou assim aparentam, sabe-se lá porquê.

Cara chato, este, não, que vem com essa conversa deprê em pleno Carnaval?

Verdade, "não combina..."

Quando anos atrás pensava em escrever um livro sobre depressão, um dos títulos que passou pela minha cabeça foi justamente esse: "A Depressão no País da Alegria". Cheguei até a desenvolver algumas idéias a respeito desse paradoxo, que opõe a condição de não-alegria que acomete aproximadamente um em cada dez cidadãos (só para ficar nos diagnósticos clássicos de depressão) à zorra em que se transforma o país nesta época do ano.

Numa conversa com o psiquiatra Wagner Gataz, da USP, ele abordou justamente essa questão, a de uma certa "falta de ambiente" para o deprimido no Brasil.

Em resumo, disse o seguinte: "Quando o finlandês ou o alemão está deprimido no inverno, ele tem uma desculpa boa: o tempo escuro, as pessoas são muito frias, o clima é muito ruim. No Brasil, nós sabemos que temos tantos depressivos quanto na Alemanha ou na Finlândia, só que aqui nós não temos essa desculpa que os europeus do norte tem. É até pior, porque a pessoa pensa: "Puxa, eu moro no Rio de Janeiro, eu tenho tudo, tenho sucesso na vida etc., como é que eu estou assim? Eu não tenho o direito de estar assim".

A condição de inadequação à sociedade em que todos devem ser vencedores, não se pode esmorecer jamais, qualquer titubeio (não é, caro executivo?) é sinônimo de fracasso tornou-se uma realidade cotidiana para os menos-felizes, os menos-iguais, o que evidentemente estigmatiza o deprimido.

Imagine então a proporção que a coisa toma na época em que todos são praticamente obrigados a serem felizes?

Bem, isso talvez ocorra porque a gente não tem o poder de saber exatamente o que ocorre por detrás de todas aquelas fantasias e de seus adereços, para enxergar o que ocorre de fato na cabeça de cada um, entre os versos da felicidade fabricada...

Ok, mas já que é Carnaval, e Carnaval é música, vamos a uma pequena vingança musical, em resposta ao skindô-skindô nacional, relembrando algumas canções ou trechos delas:

"Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor" (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)

"Tristeza não tem fim/ felicidade, sim"
(Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

"Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando até meio triste
De estar tanto tempo longe de você
Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar"

(Bom Dia, Tristeza, de Vinícius de Moraes e Adoniran Barbosa)

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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