Pensata

Luiz Caversan

03/03/2007

Que o Haiti seja aqui

Três anos atrás, em abril de 2004, escrevi aqui neste mesmo espaço texto com título semelhante ao acima, estranhando o fato de o Brasil estar prestes a enviar tropas ao Haiti, país emblemático em termos de violência, miséria e abandono, ao passo que aqui mesmo em nosso quintal a pobreza, a miséria e o abandono, não menos emblemáticos, grassavam.

O Brasil iria compor as tropas de paz da ONU, os Capacetes Azuis, na tentativa de restabelecer a ordem no país centro-americano, usando para isso efetivos do exército e/ou do corpo de Fuzileiros Navais.

Pois bem, já então dava-se como impossível que tropas do Exército e/ou Fuzileiros pudessem atuar no combate sistemático à violência no Rio de Janeiro, por exemplo. Não estariam preparados para isso, tampouco esse seria seu papel embora nunca me tenham convencido de qual seria, então, o papel do nosso volumoso Exército ou dos nossos mariners quando não há uma guerra ou iminência de invasão do país...

Eis que a resposta para minhas indagações chegou esta semana, por meio da informação segundo a qual os Capacetes Azuis brasileiros restabeleceram a ordem no último reduto de conflagração, violência e rebeldia em Porto Príncipe, capital do Haiti.

Com a reconquista de Bois Neuf, superfavela haitiense, dominada por grupos que antes até poderiam ser chamados de rebeldes, mas que se converteram em meras gangues criminosas, todas as áreas antes em conflito estão agora sob o controle dos militares encarregados de estabelecer a paz.

Ponto para a ONU, ponto para os militares brasileiros

Em Bois Neuf, os bandidos se entrincheiravam por detrás de armamento pesado, fortificações e obstáculos anti-tanques e outros recursos de resistência. Ou seja, engendravam uma série de operações paramilitares muito, mas muito mesmo parecidas com as que são diariamente postas em prática pelos traficantes e milicianos que atuam nos morros do Rio de Janeiro.

Ora, se os militares brasileiros conseguiram, em pouco mais de dois anos de atuação, utilizando estratégia, inteligência e esforço militar cotidiano, restabelecer a paz em Bois Neuf, por que não podem, perfeitamente, fazer isso no Complexo do Alemão, na Maré ou em outra das tantas favelas dominadas pela criminalidade do Rio?

Qual a desculpa que poderia ser usada agora para sustentar o insustentável, ou seja, que tropas militares não podem desempenhar ações desse tipo?

Deu certo no Haiti, porque não daria aqui?

Que o Haiti seja aqui!

Quando vivia no Rio, estava acostumado a ouvir piadas sobre coisas que só acontecem em São Paulo.

Pois bem, aí vai mais uma para engrandecer o folclore: quinta-feira à noite, num vôo procedente de Brasília, o avião em que eu estava ficou quase uma hora dando voltas (gastando querosene, aquecendo o planeta e a paciência dos passageiros) porque simplesmente não havia lugar para ele aportar em Congonhas.

Ou seja, em São Paulo já está faltando vaga para avião estacionar...

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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