Luiz Caversan
Ciganos de primeira classe
O trem começa a se mover na estação de Veneza, e a família de ciganos adentra e se instala no vagão da primeira classe. Teriam o direito de fazê-lo, claro, porque isso "ainda" não foi proibido aos ciganos na Europa, mas desde que tivessem comprado os bilhetes para tanto.
Não tinham.
Na verdade estavam sem bilhete nenhum, de primeira ou segunda, então, ilegal por ilegal, vamos logo de primeira, devem ter pensado o pai, a mãe, a irmã da mãe (uma era a cara da outra) e as duas crianças, arriscando-se a pagar uma multa severa.
O bilhete de primeira de Veneza para Bolonha (o trajeto daquele trem) custava 13,10 euros. A família teria de pagar, portanto, pelo menos uns 50 euros. Na segunda classe, custaria uns 50% menos.
Mesmo assim é bastante dinheiro num país, a Itália, em que os filhos da classe média italiana legítima têm muita, muita dificuldade para arranjar ocupação em que ganhem mais de 1.000 euros por mês (cerca de R$ 2.800).
Que dirá os ciganos...
Paradoxal a situação de um país em que a classe média não tem trabalho qualificado equivalente aos de seus pais, ao mesmo tempo em que todas as suas cidades mais importantes sofrem uma invasão de ciganos, albaneses, africanos de várias origens, além dos provenientes de países da ex-União Soviética ou da ex-Iugoslávia.
É o ciclo natural da história que se repete...
A visita ao norte da Itália, mais precisamente a Veneza, tem dois motivos básicos: estender o período de trabalho em Milão a uma das cidades mais cinematográficas do planeta e rever a região de origem do sobrenome que assina esta coluna.
Quando meu avô deixou o fundo da laguna veneziana, na virada do século 19 para o século 20, largou atrás de si na paupérrima Portogruaro uma fome que não dava para combater apenas com a dieta de polenta com cogumelo selvagem (hoje é funghi, chique...) e algumas doenças crônicas que proliferavam nos pântanos da região, como cólera, febre amarela e tifo.
Quando decidiu imigrar, não teve obviamente a opção de ir de "carona" na primeira classe, mas sim num dos infectos navios desclassificados que levaram tantos imigrantes para ajudar no desenvolvimento do Brasil.
Agricultor era, agricultor permaneceu, depois acabou trabalhando para os Matarazzo e só. Foi pouco além disso até morrer, não miserável mas remediado, no começo dos anos 1950.
Obviamente muitos imigrantes se deram bem melhor no Brasil e, de fato, "fizeram a América", como se diz aqui, o que foi bom para ambas as partes.
Mas desde a saída do Ernesto Caverzan de Portogruaro, tantas batalhas passaram por aquele canto da Europa, além das duas grandes guerras, e o movimento natural de sempre acabou conduzindo a ex-cidadezinha miserável a condições inimagináveis no tempo dos "polentones": Gucci, Prada, Ferrari, Ferragamo, Fendi e tantas outras grifes estão ali para garantir o padrão de vida dos que enriqueceram com o agronegócio local e que precisam, assim como demais italianos abonados, fazer "una bella figura".
Bela figura esta com a qual sonham os depauperados novos imigrantes, dos quais a comunidade européia não desgruda a condição de ilegais e em quem os locais acabam pespegando a pecha de invasores.
Dadas as condições econômicas atuais e de médio prazo, trata-se de um sonho que dificilmente terá o mesmo final, se não totalmente feliz, pelo menos satisfatório como o dos imigrantes europeus que foram para a América, Brasil incluso.
Porque, pelo andar do trem da história atual no Velho Continente, certamente ainda vai demorar muito até eles poderem andar dignamente de primeira classe.
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
