Pensata

Luiz Caversan

14/04/2007

A modernidade da melancolia

São nada menos que 200 obras primas, reunidas naquela que já está sendo considerada a grande exposição do ano na Itália, palco eterno de grandes exposições.

Reprodução
Moretto
Moretto

Não é para menos, afinal os protagonistas da mostra são, entre outros: Michelangelo, Botticelli, Giorgione, Rosso Fiorentino, Tiziano, Tintoreto, De Chirico, Modigliani, além de mais recentes, como William Blake, Omar Galliani ou Irving Petlin.

O nome da exposição é bem sugestivo, "Il Settimo Splendore- La Modernità della Malincolina". Refere-se ao Sétimo Céu (o da reflexão, na Divina Comédia de Dante) e à melancolia como princípio da sensibilidade artística.

E ousa, ainda mais, sugerir que o desenvolvimento desse princípio deu-se sobretudo no Mediterrâneo, especificamente na Itália.

Reprodução
Antonio Canova
Antonio Canova

Polêmicas à parte, o fato é que a exposição nos oferece uma rara possibilidade de intersecção da melancolia de antanho com a depressão de hoje em dia, não só por questões científicas, uma vez que a palavra depressão é, tecnicamente, herdeira legítima da designação melancolia, mas sobretudo pela constatação da expressão recolhida e/ou do olhar melancólico, hoje deprimido, que salta dos personagens reproduzidos nas telas --todas elas oriundas de museus de diversas países europeus.

Seriam os olhares da reflexão no céu de Dante a mover o âmago do artista, mas poderiam perfeitamente significar a janela da alma a revelar os tormentos e os conflitos daqueles que se movem por intermédio da criação, porque outra maneira de fazê-lo não haveria...

Do ensaio do rosto que Michelangelo fez para um trecho do teto da Capela Sistina à Madalena de Caravaggio, passando pela "Melancolia", de Böklin, há motivos de sobra para que os melancólicos/deprimidos de hoje possam, ao menos, perceber que a tristeza que lhes faz companhia é não apenas de antanho como resultou em obras de arte absolutamente esplendorosas. Clique aqui para ver alguns exemplos.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca