Luiz Caversan
Quando a culpa é dos outros
"Ele estava muito deprimido."
A frase é de um dos dezenas de psiquiatras que foram ouvidos no afã de se explicar a sandice do rapaz coreano que matou mais de 30 colegas de universidade nos Estados Unidos.
Outros especialistas chegaram perto de dizer isso, e informações mais recentes deram conta de que o rapaz era quieto, arredio, triste.
Era quieto, arredio, triste e muito mais!
Provavelmente paranóico e, diante de tudo o que fez, indubitavelmente psicopata.
Afinal, enumerou uma meia dúzia de "culpas" que as pessoas que o cercavam tinham em relação a ele e tratou de exterminá-las.
Ou seja, o cara estava bem mais do que deprimido.
Mas é muito mais fácil, e a expressão está no cotidiano das pessoas, dizer que ele estava "muito deprimido".
Não sou psiquiatra e o meu conhecimento sobre depressão vem de anos de leitura, contato direto e contínuo com portadores e tratamento para enfrentar algumas crises desse transtorno, que hoje atinge parcela significativa da população mundial, estimando-se até que 17% das pessoas passaram ou vão passar por alguma crise em algum momento da vida.
E uma das características mais cruéis dessa doença de tantos sintomas é justamente o sentimento de culpa que ela impõe às suas próprias vítimas, diante da incapacidade de entender e/ou enfrentar o mundo, ou seja, a vida normal e comezinha.
Isso quer dizer que se há alguma coisa errada na vida de quem está deprimido, o erro está dentro de quem sofre na pele o transtorno, nunca do lado de fora, jamais nos outros. É a mais profunda e solitária interiorização da dor, conforme já me descreveu um psiquiatra, porque o doente "sabe" que ele é o responsável por aquilo, e aquilo é absolutamente inexplicável, embora possa ser entendido como descontrole de neurônios etc.
Difícil? Muito, ter que conviver cotidianamente com tristeza, a quietude e o afastamento das pessoas...
Mas, daí a comprar duas automáticas e cem quilos de munição e sair atirando em estudantes porque a culpa é "deles", "eles" são responsáveis pela solidão e pela tristeza? Bem, ainda há muito o que se estudar a respeito do rapaz.
Deprimido ou não, entretanto, uma coisa é certa: ele fez aquilo que fez porque tinha duas armas de última geração nas mãos compradas com a maior facilidade do mundo, quem, sabe no supermercado da esquina...
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
