Luiz Caversan
O amor que nos aparta
A mulher quer o amor romântico. O homem, não, ela diz. A mulher quer construir. O homem, usufruir, ela diz. A mulher quer somar. O homem, conformar, diz também.
Na desigualdade das nossas semelhanças, nos apartamos no ímpeto da aproximação. Relações chegam, duram tanto ou quanto, vão-se, deixando para trás o rastro da equação não resolvida: o que deveria ter sido feito?
Não, não é provocação, mas veja só este personagem, até então ligeiramente amoral, do livro "O Animal Agonizante", de Philip Roth sobre essa digamos assim divergência de pontos de vista: "A grande peça que a biologia prega nas pessoas é que a gente já é íntima antes mesmo de saber coisa alguma a respeito da outra pessoa. No primeiro momento, já entendemos tudo. Um é atraído pela superfície do outro no início, mas também intui a dimensão mais profunda. E a atração não precisa ser equivalente: ela se sente atraída por uma coisa, você por outra. É a superfície, é curiosidade, mas então, pum!, a dimensão profunda. É bom ela ser (...) isso, é bom ela ser aquilo, é bom eu saber tocar piano e ter um manuscrito do Kafka, mas tudo isso não passa de um desvio do caminho que vamos acabar seguindo. Faz parte do encantamento, imagino; porém, se essa parte não fosse necessária, eu gostaria muito mais. Em matéria de encantamento, o sexo por si só já basta. Será que os homens acham as mulheres tão encantadoras quando o sexo é omitido. Será que alguém, qualquer que seja o sexo, acha alguém encantador se não houver nada sexual entre eles? Tem alguém que encanta você sem ser por isso? Não tem."
Divergência de pontos de vista é piada: trata-se aqui de incompatibilidade irreconciliável, certo moça?
Imagine, sexo basta!
E o amor, que a tudo supera e tudo resolve desde que tenha espaço para simplesmente ser, em sua magnitude e em seu encantamento que tudo supre e tudo acondiciona?
Sei, sei...
E os monstros, onde enfiar os monstrinhos que nos tornam cada um a caverna escura de si mesmo, na eterna busca pela luzinha lá no final?
Erro imaginar que esse sentimento que se projeta no outro ou naquilo que nasce do contato com o outro pode encerrar toda a possibilidade incontestável der ser feliz, bem feliz.
Somos bem piores que isso...
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
