Pensata

Luiz Caversan

22/03/2008

Medo de morrer

"Olha, eu gostaria muito de dizer que você é insubstituível, mas não posso fazer isso, porque estaria mentindo."

A frase proferida em tom de blague pelo irascível e egocêntrico Cole (Jack Nicholson) para o prestativo assistente Thomas (Sean Hayes) caiu como uma luva depois de dias de reflexão sobre a morte.

Ali se tratava da morte real, não de Thomas, mas de Cole e também de Carter (Morgan Freeman), personagens centrais de "Antes de Partir" (The Bucket List), filme em que dois sessentões de perfis totalmente opostos se vêem diante do "gran finale" anunciado pelo diagnóstico duplo de câncer.

Cole é o biliardário exótico, Carter o mecânico pai-de-família e ambos são involuntariamente aproximados pela iminência da morte. E decidem, depois de algum vai-e-vem, aprontar um pouco antes de ir dessa para uma melhor --ou pior, este é o ponto...

Bem, mas o enredo do filme e algum de seus detalhes --destaque obviamente para a atuação dos dois astros e para uma ou outra idéia bem sacada, e só-- chegou numa semana cheia de sismas relativas à morte. O caras se divertem antes de morrer, mas a "grande dúvida" permanece até o final, encarado de forma diversa por ambos.

A morte, suas formas e particularidades foram assunto em algumas ocasiões durante a semana, sobretudo durante um pacato almoço familiar, no qual foi lembrado que avô, tio, tia, outro tio e mais não sei quem da família morreram de câncer. Ah, é mesmo, o pai teve um de pele, mas morreu de infarto...

A pressão arterial está controlada, o colesterol baixando, a bicicleta foi recentemente posta de novo a funcionar, os exames dizem que tudo vai bem, obrigado, percorridas mais de cinco décadas... Mas e o danado do câncer, que vem nunca se sabe de onde, nem quando, tampouco onde vai atacar? Se for atacar. Ou a condenação genética já está escrita?

O fato é que, por conta dessas ilações --entristecidas pelo sofrimento atual de um contraparente--, o temor da morte se instala e reluta em ir embora.

Um bom momento do filme supracitado ocorre logo no começo, quando a voz em off divaga sobre a finitude e a razão da vida. São essas questões que ecoam na película e na cachola aqui: o que é o mais importante, ter feito algo de valor, deixar fãs e/ou adeptos de nossas idéias, simplesmente ter fé? Ou do pó viestes e ao pó voltarás e ponto final?

A inveja de quem tem fé, também citada no filme, surge sorrateira e quase se instala, não fosse a constatação de que há alguma fé, sim, ainda que em momentos muitos aflitivos e bem dissimulada.

Mas não é aquela "fezona" boa e forte, que garante uma passagem supostamente tranqüila para seja lá o que estiver "do outro lado", que pode ser tudo, inclusiva nada.

Não, não basta esta fezinha aqui. Parece que é preciso muito mais que isso para deter o medo de morrer, a sensação de que de repente tudo se acaba e pronto, foi-se... Como num emprego ou num namoro em que você é logo trocado por outro, obviamente com os traumas de praxe.

Afinal, ninguém é insubstituível, certo?

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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