Luiz Caversan
Crise e oportunidade
da Folha Online
Está na moda falar mal da China por conta da ocupação do Tibete e suas implicações socio-político-culturais e religiosas. Depois de uma onda avassaladora de críticas à presença chinesa, aqui e ali surgem ponderações sobre supostos benefícios que tal ocupação teria trazido à nação tibetana, "modernizando-a" e livrando-a de uma "dominação" idiossincrática pela cultura lamanista, também supostamente ditatorial, escravocrata etc.
Sem entrar em detalhes, seria interessante deixar claro apenas que toda dominação é condenável e que todo povo, toda nação tem o direito a traçar seus próprios destinos, sem precisar ser anexada por outrem. Quantas atrocidades já foram cometidas em nome da "libertação" e da "modernização"?
Que o Tibete apenas e os tibetanos façam o que bem entenderem de seu próprio destino.
Mas já que isso está longe de acontecer, dado o poder crescente do dominador, aproveita-se aqui o mote China para relembrar, como ocorreu esta semana, a palavra chinesa que define crise --esta agora com o Tibete ou qualquer outra.
Como muita gente já sabe, para expressar "crise" os chineses utilizam dois ideogramas, significando respectivamente "risco" e "oportunidade".
O risco é inerente à crise, trata-se de uma implicação sua, isso nossa cultura ocidente sabe bem. Mas para nós é difícil entender que na crise, no risco, na situação perigosa e/ou limítrofe, também está embutida a oportunidade de renovação, de superação, de criação, de aprendizado.
Perdas em geral implicam em crises, e foi assim que o assunto veio à tona em duas oportunidades.
Na primeira, uma amiga perde seu principal colaborador profissional. Em meio ao luto e à profunda tristeza, porém, vislumbra a esperada oportunidade de dar uma guinada em seus negócios, renovar, ampliar, criar novas metas e novos horizontes. Da dor ao crescimento, e assim a vida segue, inclusive reverenciando o parceiro que se foi.
Na outra oportunidade, fala-se de depressão. Um jovem leitor relata seus dramas e sofrimentos diante da perda do chamado "joie de vivre", do prazer de viver, causada por uma série de mal-estares que ele identificou como sintomas de depressão --ansiedade, crises de pânico, incapacidade de explicar claramente o que está sentindo, medo.
Mais que isso, o rapaz decepciona-se com a reação da mãe: meu filho, isso é gripe...
Mãe é assim mesmo, digo: ou exagera tudo ou acha que não é nada, dois extremos de quem cuida demais, de quem procura antecipar desgraças ou evitar a idéia de que um filho possa de fato estar mal.
O importante é que o rapaz reage e vai em frente, estimula-se e diz que quer um bom profissional, um médico para esclarecer devidamente as coisas. O que certamente o levará a um crescimento pessoal inestimável nesta idade de formatação da personalidade e de preparação para tudo o que de bom e de ruim a vida ainda haverá de trazer.
Por falar em depressão, dia desses, num ponto de ônibus duas jovens conversam, referindo-se ao pai do namorado de uma delas (dá para ouvir porque elas falam alto, sorry...) como portador da doença, sempre tristonho e melancólico.
Falam de depressão como quem fala de diabetes, bronquite, asma, o que suscitou uma dúvida: isso é bom ou ruim?
Poucos anos atrás, depressão era tabu, coisa feia, negócio de gente maluca, o preconceito imperava. Hoje, soa como uma coisa absolutamente comum.
Corriqueira, tal e qual uma gripe --aí talvez a inferência da mãe do meu jovem leitor.
O problema e começarem a tomar antidepressivos como se fosse aspirina...
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
