Luiz Caversan
Coração de mãe
No espelho, a tristeza do olhar é remissiva, leva até os primeiros olhares, as lembranças deles, da proximidade, da proteção, da segurança, do colo.
Muitos, muitos gestos e hábitos, e mesmo alguns vícios, a trazem de volta:
Limpa bem a orelha, menino! E o não-mais-menino ainda deixa os pavilhões auriculares vermelhos de tão esfregados...
Pensa que é sócio da Light, menino? E o quase-velho vai apagando as luzes por onde passa, até na casa dos outros, um vexame...
Não se entrega, que aí é que a gripe pega mesmo! E lá vem a culpa de se render à cama por conta de um resfriado qualquer...
Mãe é mãe, só muda de endereço, disse aqui mesmo em outra data festiva, relacionando um monte de adjetivos que elas, as mães, fazem por merecer.
Mesmo quando se vai, ela fica, para sempre, determinando os hábitos mais comezinhos (fechar a torneira enquanto escova os dentes...) ou os sentimentos mais profundos (faça o mal ou faça o bem, mas saiba que o que vai sempre volta...)
Nos últimos anos de vida da mãe, não levava mais presentes, apenas flores. Flores do campo, variadas, cheirosas e simples. Enquanto ajeitava o buquê no vaso, ela ia apontando, uma a uma, as belezas particulares, as cores, os formatos, a delicadeza.
Delicadeza
Era surpreendente como ainda a mantinha, apesar de toda a dureza que a vida fora. À máquina de costura, na barraca da feira, no balcão da lojinha ou do armazém, à direção do fusquinha 62 para atender as freguesas que garantiriam o sustento da casa, a roupa que o filho pedia, a mensalidade da escola...
Não entendi direito, mas adorei, disse ela diante da primeira reportagem com o nome do filho já lá se vão três décadas, cheia de orgulho e deixando de lado a vergonha pela ignorância. Ignorância, aliás que se transformara em permanente alavanca da curiosidade e do aprendizado --outra herança, forte, que também ficou.
Nunca foi de alegrias inúteis, sarcástica e de humor ácido que era; mas foi tornando-se cada vez mais triste, numa quietude angustiada e retraída --ah, então não se sabia quase nada sobre depressão, ainda mais que seria hereditária...
Miúda, elétrica e cheia de atitude, não chegou a definhar, mas os olhos tristes foram ficando esgazeados, perdendo a luz, recolhendo-se, até que a vontade de viver partiu, incontinente.
Tinha feito quase tudo o que houvera para, exceto estudar mais, ler mais, conhecer mais e exercer por mais tempo o domínio da super-mãe que sempre tentara ser --nunca perdoou o filho por este ter "ido embora", ou seja, apenas ter saído do campo de sua proteção. Um não-perdão do bem, sem rancor e sem mágoa.
Faz falta, ainda e sempre. A conversa vigorosa, os conselhos, até mesmo a intransigência e ranhetice --deve estar pegando no pé do pai lá em cima, mandando ele sair da frente da televisão.
Ensinou muito, pediu pouco, viveu mal e bem, foi-se mas aqui sempre estará.
Não se iluda: coração de mãe jamais deixa de bater.
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
