Pensata

Luiz Caversan

31/05/2008

Em defesa da vida?

Celso de Mello, Carlos Ayres Brito, Carmen Lúcia, Joaquim Barbosa, Marco Aurélio de Mello e Ellen Gracie, eis os nomes dos magistrados do Supremo Tribunal Federal que nos fazem ter um pouco de esperança na chamada sociedade organizada, uma vez que foram eles que acabaram com a sandice que seria a proibição das pesquisas das células-tronco embrionárias.

Um pouco de luz nas trevas de um debate com argumentos equivocados, que pretendia tirar a esperança de milhares de pessoas que poderão um dia se beneficiar do avanço científico ora liberado.

Defender a "vida" de um pouco de matéria orgânica cujo destino seria o lixo (vão para o lixo os embriões gerados in-vitro e que não são aproveitados) é, para usar um termo na moda, de um sem-noção atroz.

Vida precisam aqueles que lutam contra distrofia muscular, traumas na medula e outras doenças, sem falar nos que lutam para ter qualquer coisa para comer, perecendo diariamente nas calçadas das grandes cidades ou nos confins deste país de tantas necessidades. Mas esta já é outra conversa, que interessa pouco e a apenas uma parte dos que defendem a vida com argumentos religiosos.

Por falar em argumentos equivocados, é uma graça a nova leva de imagens com as quais se pretende convencer as pessoas a deixar de fumar. Fetos jogados no cinzeiro, tórax abertos e cheios de bitucas de cigarros, cérebros lanhados significando sabe-se lá o quê. Poxa, capricharam os publicitários encarregados da campanha.

Será que adianta?

Duvideodó.

Sabe como se faz para diminuir, sei lá, nuns 30% o consumo de cigarros no país? 1- fechando a porta do contrabando de cigarro vagabundo e barato vindo do Paraguai; 2 - triplicando o preço do maço de cigarro.

Um maço que nos EUA ou na Europa custa mais de R$ 10, aqui sai por módicos R$ 2 e pouco...

É no bolso, senhores, que a coisa pega.

Por fim, também não aceito que combater a propaganda de cerveja na TV deva ser "o" argumento, e apenas ele, a favor da diminuição dos malefícios causados pelo consumo excessivo do álcool, um flagelo humano que, aliás, não é de hoje.

Acredito que esse debate é diversionista, leva a conversa para o campo da liberdade de expressão, quando o papo aqui é simplesmente criminal.

Você já ouviu falar de algum comerciante que foi preso por vender bebida alcoólica para menores? Você já viu alguma blitz em bares e casas noturnas atrás de menores consumindo álcool? Você já foi parado pela polícia quando estava dirigindo e foi obrigado a soprar um bafômetro? Conhece um motorista que tenha causado um acidente por dirigir embriagado ser punido com rigor?

A verdade é a seguinte: vende-se álcool de todo tipo, a qualquer hora e em qualquer lugar, para quem quiser comprar. Falsifica-se vodca, pinga e até mesmo cerveja, vendendo-os barato e sem controle algum.

Duvido que alguém veja o Zeca Pagodinho na TV e saia correndo de casa para encher a cara.

Ou será que a molecada que fica nas esquinas da Vila Madalena tomando vinho de quinta categoria no gargalo ou "derrubando" doses e mais doses de pinga com vermute faz isso pensando em dormir com a Juliana Paes?

A publicidade tem sua parcela de culpa? Ok, vamos debater e regulamentar melhor isso. Mas que tal começar cumprindo lei que já existe, botando na cadeia ou aplicando multas bem pesadas em quem vende, ou consome, bebida ilegalmente?

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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