Pensata

Luiz Caversan

12/07/2008

Cidade perigosa

A moça bonita deixa o prédio e começa a caminhar pela calçada. Ainda é cedo, começo da noite, está claro e há muita gente na rua.

Mal deu 20 passos, a moça percebe a aproximação das três pessoas, uma mulher, dois homens, negros, todos bem vestidos, aparentemente inofensivos. Mas logo um deles intercepta a moça, o outro chega junto e a mulher tenta arrancar a bolsa. Ela resiste. A mulher vai pra cima e aplica um soco no rosto da moça bonita, que finalmente cede, cai na calcada, gritando por socorro. Muita gente vê a cena, ninguém faz nada.

Ela acaba sendo socorrida pelo ocupante de um carro que passava.

Sabe onde aconteceu este assalto violento, na tarde da última sexta-feira? Não, não foi em Pinheiros, no Tatuapé, em Ipanema ou na Tijuca, não.

Foi em Londres.

Num pacato e agradável bairro de Londres, tida e havida como uma das metrópoles mais seguras do mundo.

A moca, uma querida, está na capital inglesa para um curso de férias. Trata-se de uma pessoa maravilhosa, gentil, atenciosa, no Brasil trabalha com crianças, é educadora, mas pretende ampliar seus horizontes como designer de sapatos, daí a viagem. É bonita, alta, magra e frágil, daí provavelmente a escolha dos bandidos.

Antes desse episódio, ela era só boas expectativas, a vibração de estar numa das mais interessantes cidades do mundo e, sobretudo, longe das mazelas do Brasil, suas iniqüidades, sua violência epidêmica.

Longe dos seqüestros relâmpagos, das mães que atiram filhos pela janela, dos motoristas embriagados perseguidos pela lei autoritária-que-funciona, longe da falta de educação, da grosseria, do medo que contagia o cotidiano.

Na bolsa a moça levava dinheiro, cartão de crédito, passaporte, afinal estava em Londres! Não havia porque ter a preocupação que é imposta aos turistas no Brasil, que não devem carregar valores, nem roupas chamativas, nem documentos, muito menos andar sozinho na rua, afinal, terceiro mundo, sabe como é...

Não, em Londres, a capital da vanguarda e da tolerância à multiplicidade e à diversidade, não há com que se preocupar, certo?

Errado, infelizmente, e por conta disso lá está minha amiga com o rosto e o orgulho feridos.

O que mais chamou a atenção não foi o roubo da bolsa em si, o que poderia acontecer e acontece em qualquer lugar do planeta, mas sim a violência o soco na cara e a indiferença de todos os que viram a cena e nada fizeram, como se aquilo fosse perfeitamente normal.

Isso sim é assustador, levando-se em conta todos os ícones que Londres representa para a nossa inocente ignorância...

Ainda bem que minha amiga vai superar o trauma, porque é forte e decidida, mas está obviamente amedrontada e temerosa de ir a todos aqueles lugares bacanas que só a capital do último grande reino moderno pode oferecer.

Tentei agora aqui dar um Google para descobrir os índices de violência no Reino Unido, porém não encontrei nada que me permitisse comparar e estabelecer o abismo que existe entre a terra da rainha e o Brasil.

Mas basta um pouco de informação e bom senso para concluir que nossa realidade é infinitamente mais perniciosa, embora minha amiga nunca tenha sido assaltada no Rio ou em São Paulo, tampouco sofrido qualquer outro tipo de violência - sexual, por exemplo, gênero que me dizem agora tem aumentado na capital inglesa.

Terá sido, este episódio, certamente uma falta de sorte, mas que deixou muita gente por aqui perplexa, senão pelo inusitado, ao menos pela triste constatação definitiva de que não há mesmo mais lugar seguro no mundo.

Agora se pode dizer: nem em Londres.

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca