Luiz Caversan
Wonderful world
Uns 13, 14 anos atrás, minha filha, então uma garotinha, quis saber o que eu achava: o melhor era estudar inglês ou francês?
"Você deveria estudar chinês. Os chineses vão dominar o mundo", respondi.
À época, tinha apenas a intuição de que a gigantesca e misteriosa nação do extremo oriente, que então apenas começava a despertar de um longo e tenebroso inverno ditatorial, iria se tornar "a" grande potência do planeta.
Ontem de manhã, aquela intuição, que nos últimos anos mais e mais se consolidara, tornou-se enfim uma certeza absoluta: os chineses vão dominar o mundo.
Com ou sem censura, com ou sem liberdade para o Tibet, com ou sem respeito aos direitos humanos, mas essencialmente cada vez mais capitalistas, escrevam isso: os chineses vão dominar o mundo.
Alguém aí que assistiu à abertura da Olimpíada tem dúvida disso?
Além da certeza de que, com sua tecnologia, sua determinação e suas mais de um bilhão e meio de mentes, os chineses vão em breve botar os Estados Unidos no chinelo (pode até ser um Nike falsificado...), um outro sentimento aflorou ontem durante a comovente cerimônia de abertura dos jogos. Um sentimento bobo e idiossincrático, é verdade, mas forte e agradável: o de que nações podem se defrontar com alegria e entusiasmo, contando apenas com a capacidade física de seus cidadãos, sem mortos ou feridos; de que os sorrisos de esperança e felicidade podem ser negros, brancos, amarelos, cobertos por turbantes, bonés, chapéus étnicos ou vistosos panamás; podem ser ricos ou pobres ou remediados.
Vendo o desfile das delegações, dava até para esquecer que muitos daqueles negros africanos que ali estavam tinham algum parente morrendo de fome ou de Aids em seu país de origem; que algum daqueles russos poderia ter um irmão matando um habitante da Geórgia naquele exato momento; que os sorridentes iraquianos poderiam ter sido, por pouco, um homem-bomba, explodindo algum daqueles outros ali ao lado, também sorridentes, mas americanos comandados pelo devidamente vaiado George W. Bush.
Não só deu para esquecer essas mazelas todas, como, a todo instante, foi imperioso lembrar de uma velha música, também boba e idiossincrática, mas que insiste em permanecer no fundo da mente de quem um dia acreditou que o mundo tinha jeito.
Conhece esta canção?
I see trees of green, red roses too
Eu vejo o verde das árvores, rosas vermelhas também
I see them bloom for me and you
Eu vejo florescer para nós dois
And I think to myself, what a wonderful world
E eu penso comigo, que mundo maravilhoso
I see skies of blue and clouds of white
Eu vejo o azul dos céus e o branco das nuvens
The bright blessed day, the dark sacred night
O brilho do dia abençoado, a sagrada noite escura
And I think to myself, what a wonderful world
E eu penso comigo, que mundo maravilhoso
The colors of the rainbow, so pretty in the sky
As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
Are also on the faces of people going by
E estão também nos rostos das pessoas que passam
I see friends shaking hands saying how do you do
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo como você vai
They're really saying I love You
Eles realmente dizem eu te amo
I hear babies cry, I watch then grow
Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
They'll learn much more than I'll never know
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
And I think to myself what a wonderful world
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Yes I think to myself what a wonderful world
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso
(What A Wonderful World, Louis Armstrong)
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
