Pensata

Luiz Caversan

09/08/2008

Wonderful world

Uns 13, 14 anos atrás, minha filha, então uma garotinha, quis saber o que eu achava: o melhor era estudar inglês ou francês?

"Você deveria estudar chinês. Os chineses vão dominar o mundo", respondi.

À época, tinha apenas a intuição de que a gigantesca e misteriosa nação do extremo oriente, que então apenas começava a despertar de um longo e tenebroso inverno ditatorial, iria se tornar "a" grande potência do planeta.

Ontem de manhã, aquela intuição, que nos últimos anos mais e mais se consolidara, tornou-se enfim uma certeza absoluta: os chineses vão dominar o mundo.

Com ou sem censura, com ou sem liberdade para o Tibet, com ou sem respeito aos direitos humanos, mas essencialmente cada vez mais capitalistas, escrevam isso: os chineses vão dominar o mundo.

Alguém aí que assistiu à abertura da Olimpíada tem dúvida disso?

Além da certeza de que, com sua tecnologia, sua determinação e suas mais de um bilhão e meio de mentes, os chineses vão em breve botar os Estados Unidos no chinelo (pode até ser um Nike falsificado...), um outro sentimento aflorou ontem durante a comovente cerimônia de abertura dos jogos. Um sentimento bobo e idiossincrático, é verdade, mas forte e agradável: o de que nações podem se defrontar com alegria e entusiasmo, contando apenas com a capacidade física de seus cidadãos, sem mortos ou feridos; de que os sorrisos de esperança e felicidade podem ser negros, brancos, amarelos, cobertos por turbantes, bonés, chapéus étnicos ou vistosos panamás; podem ser ricos ou pobres ou remediados.

Vendo o desfile das delegações, dava até para esquecer que muitos daqueles negros africanos que ali estavam tinham algum parente morrendo de fome ou de Aids em seu país de origem; que algum daqueles russos poderia ter um irmão matando um habitante da Geórgia naquele exato momento; que os sorridentes iraquianos poderiam ter sido, por pouco, um homem-bomba, explodindo algum daqueles outros ali ao lado, também sorridentes, mas americanos comandados pelo devidamente vaiado George W. Bush.

Não só deu para esquecer essas mazelas todas, como, a todo instante, foi imperioso lembrar de uma velha música, também boba e idiossincrática, mas que insiste em permanecer no fundo da mente de quem um dia acreditou que o mundo tinha jeito.
Conhece esta canção?

I see trees of green, red roses too
Eu vejo o verde das árvores, rosas vermelhas também

I see them bloom for me and you
Eu vejo florescer para nós dois

And I think to myself, what a wonderful world
E eu penso comigo, que mundo maravilhoso

I see skies of blue and clouds of white
Eu vejo o azul dos céus e o branco das nuvens

The bright blessed day, the dark sacred night
O brilho do dia abençoado, a sagrada noite escura

And I think to myself, what a wonderful world
E eu penso comigo, que mundo maravilhoso

The colors of the rainbow, so pretty in the sky
As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus

Are also on the faces of people going by
E estão também nos rostos das pessoas que passam

I see friends shaking hands saying how do you do
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo como você vai

They're really saying I love You
Eles realmente dizem eu te amo

I hear babies cry, I watch then grow
Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer

They'll learn much more than I'll never know
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei

And I think to myself what a wonderful world
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

Yes I think to myself what a wonderful world
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso

(What A Wonderful World, Louis Armstrong)

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca