Luiz Caversan
São João Gilberto
Em 1978, repórter de cultura do jornal "O Estado de S. Paulo", eu tinha 23 anos e sabia tudo. Principalmente sobre música, achava que sabia tudo: rock de Elvis, Led Zeppelin a Rolling Stones e Beatles, black de James Brown a Steve Wonder, MPB de Roberto, Gil, Caetano, Elis a Chico e Rita Lee, jazz de Miles Davis, Charlie Parker a John McLaughlin. Até do brega que era expressão do pop nacional de então sabia um pouco, sem falar no samba, de Paulinho da Viola a Cartola, o gênio.
Mesmo nos clássicos ousava dar palpites, imagine...
Esse suposto ecletismo, no entanto, excluía com franqueza um único gênero: a Bossa Nova.
Até então, João Gilberto era apenas o cara que inventara a batida sincopada do violão que acompanhava aquela vozinha pequenininha, em letras bobinhas que falavam de barquinhos, tardinhas, banquinhos e do famigerado pato quém-quém. Ou seja, como sustentava até pouco tempo atrás o cartunista Angeli (que como bom velho punk não deve ter mudado de opinião), era uma coisa muito chata.
Foi com esse espírito que, naquele ano de 1978, fui ao Teatro Municipal de São Paulo assistir ao retorno aos palcos brasileiros, depois de muitos anos vivendo nos EUA, de João Gilberto.
O desdém permaneceu inclusive e principalmente durante o atraso do cantor para começar a apresentação, dentro do que se consagraria como parte do seu estilo esquisitão.
O cara entra no palco, magrinho e já ostentando aquela sua postura meio chapliniana, cumprimenta o público, senta-se e...
Bem, bastou soarem os primeiros acordes e as primeiras palavras saírem de sua boca para que minha vida começasse a mudar. Para sempre. A partir do dia em que ouvi João Gilberto ao vivo pela primeira vez, minha vida --e por extensão minha noção de música, de sensibilidade, de canção, de brasilidade-- nunca mais foi a mesma.
Antes de entender João Gilberto, descobri naquela noite, eu não sabia absolutamente nada de música.
Faz 30 anos que eu ouvi o cantor pela primeira vez ao vivo, afundado na poltrona do Municipal, contendo as lágrimas a cada sopro de sua voz divina, a cada toque aveludado do violão. Já tinha, com muita má vontade, ouvido gravações do cara, mas a presença física daquele homem pequeno, frágil, integrado ao violão como se fosse extensão da sua própria existência, falando mansinho letras que remetiam a um Brasil perdido nos meandros da modernidade, foi avassaladora.
Bem, faz quase 24 horas que ouvi João de novo, desta vez no lindíssimo Auditório Ibirapuera.
Mais uma vez foi preciso paciência, porque o show atrasou uma hora e meia, por conta, mais uma vez, das idiossincrasias do artista, o que para muitos é uma falta de profissionalismo imperdoável.
Esses, como eu 30 anos atrás, não sabem nada.
Ou ao menos não sabem que show do João começa uma, duas horas antes de ele entrar no palco, há de haver uma preparação preciosa do ouvinte, que inclui essa espera, essa expectativa, que pode se converter em um martírio, como foi o caso das inúmeras vezes em que ele, em outros shows, além de atrasar muito interrompia a apresentação para reclamar do som, do ar condicionado, do...
Não importa.
No concerto de quinta-feira em São Paulo, João inovou mais uma vez fazendo tudo exatamente como vem fazendo desde que inventou a Bossa Nova em 1958.
Inovou porque a cada verso, a cada acorde, a cada toque nas cordas ele recria o irrecriável, seja o bendito quém-quém, seja na lindíssima "Lygia", de Tom, que ele cantou sem falar esse nome uma única vez, seja na inescapável "Chega de Saudades" ou no bom e velho "Desafinado" (veja a lista completa abaixo).
João Gilberto é único porque eleva a canção popular brasileira ao patamar da erudição.
Com ele, o trivial é sublime, o banal divino, o som adquire contornos absolutamente etéreos, como se fosse um sopro de vida.
Não importa que João Gilberto seja chato, implique com o som, não saia de casa, não atenda o telefone, vire as costas, deixe o palco e vá embora, com seu contorno a cada dia mais Carlitos.
Ele não é mais um gênio, já foi isso em 1958.
Agora ele é como que um monge a distribuir benesses sonoras aos que procuram a luz em notas musicais.
João Gilberto é um santo.
São João Gilberto.
*
Eis as canções com as quais João Gilberto nos presentou:
"Aos Pés da Cruz"
"13 de Ouro"
"Wave"
"Caminhos Cruzados"
"Doralice"
"Meditação"
"Preconceito"
"Disse Alguém"
"O Pato"
"Corcovado"
"Samba do Avião"
"Lígia" [sem dizer nenhuma vez "Lígia"]
"Você Já Foi à Bahia?"
"Rosa Morena"
"Morena Boca de Ouro"
"Desafinado"
"Estate"
"Só Vou pra Casa"
"Chega de Saudade"
"Isto Aqui o que É"
Bis
"Chove Lá Fora"
"O Nosso Olhar"
"Bahia com H"
"Da cor do pecado"
"Samba de uma Nota Só"
"Retrato em Branco e Preto"
"Samba de uma Nota Só"
"Guacyra"
"Pra Machucar Meu Coração"
"Garota de Ipanema"
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
