Pensata

Luiz Caversan

20/09/2008

O velho e a banana

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A enfermeira tenta conduzir o velho em direção a uma parte do pátio onde há cadeiras e um caramanchão.

Mas ele resiste, não quer ir e se dirige ao portão da clínica para idosos que fica atrás do meu prédio.

Da janela da cozinha, vejo os idosos, os enfermeiros, médicos, visitas, padres rezando missa de vez em quando, festinha de São João, aniversários, mas em geral o que rola mesmo são sandices, várias, de gente que perdeu ou está perdendo a razão para doenças degenerativas, principalmente Alzheimer.

Todos ali parecem esperar pacientemente, mas alguns vez ou outra perdem a paciência, saem da letargia em que se encontram e buscam eles mesmo "tomar uma atitude", sem saber exatamente qual.

Como aquele homem parado no meio do pátio.

É gordinho, e logo outra enfermeira aparece, e juntas elas oferecem uma banana para que ele desista de ir para o portão e venha para junto dos outros senhores e senhoras do asilo, cerca de 20 a 30 internos, a maioria senil.

Ele titubeia, não sabe se sobe a pequena rampa em direção à rua ou se vai atrás da banana.

O que ele estará pensando?

Como ter dúvida entre uma banana e a liberdade?

O que significa liberdade para aquele senhor de cabelos ralos e quase totalmente brancos, alto, forte, certamente pai, provavelmente avô, pouco mais de 70 anos?

Indeciso e nervoso, ele acaba mandando, num gesto, a enfermeira enfiar a banana...

As moças riem, ele fica ainda mais agitado.

E segue para o lado errado, rumo ao portão.

Será que ele sabe o que o espera lá fora?

Sim, lá de onde veio, trazendo suas memórias prejudicadas, a perda do senso, deixando para trás família, trabalho, amigos, lembranças das quais não se lembra mais...

A partir dali, diante daquela decisão errada do velho, a brincadeira acaba, a banana desaparece, e três enfermeiras se dirigem para ele, resolutas.

Dá um aperto no coração assistir àquela cena. Não houve como não fazer algumas contas e imaginar quanto tempo ainda falta para que aquele tipo de demência cada vez mais comum e tão vizinha se avizinhe mais ainda, eventualmente batendo na porta da minha própria memória.Vinte anos? Menos?

Antes que as enfermeiras cheguem ao velho, o que daria início a uma ação no mínimo constrangedora, dou-me conta de que basta me afastar da janela para fugir daquilo.

E é o que covardemente faço...

Penso mais um pouco no velho, nas enfermeiras, no fato de sua família poder pagar para que ele tenha ali naquela boa casa de saúde uma assistência minimamente digna, digna dentro das possibilidades de quem perdeu já quase tudo.

Entre afundar em pensamentos tristes e depressivos ou ir em frente, prefiro imaginar que as moças conduziram o velho senhor a uma cadeira confortável junto aos demais internos, que ele sentou-se calmamente e ... comeu sua banana.

*

Os idosos da clínica vizinha são meus inspiradores de reflexões cotidianas, já expressadas aqui em outras oportunidades ("[leia aqui]": http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/luizcaversan/ult513u383439.shtml). Mesmo ali, fechados em seu mundo, eles ainda são capazes de nos ensinar algo.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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