Pensata

Luiz Caversan

04/10/2008

Ao vencedor, as macaxeiras

Por força de um destino cada vez mais travesso, eis que às vésperas da eleição para prefeito na minha cidade acho-me aqui, no Recife, às voltas com os candidatos dos outros.

O trabalho que me traz outra vez a esta cidade de tantos e tão profundos contrastes nada tem a ver com política, mas a política acaba contaminando tudo o que se faz, porque a coisa é feia, o bicho pega e não há espaço para amadores.

Tanto que as alianças tradicionais de um pedaço do Brasil cheio de alianças e tradições estão em questão, e a questão é, como sempre: quem pode mais chora menos.

Mas não vou entrar nos meandros da política comezinha, mesmo porque o meu lance aqui é cultura. Falo com DJs, tatuadores, produtores culturais, jornalistas, tudo em nome de um projeto comercial que apóia e quer estar junto de quem faz arte, quem interfere na realidade.

E que realidade, esta aqui!

Da lama ao caos, dizia o Chico Science, que está presente, correndo nas veias de todos os canais abertos ao ar livre, levando seu calor fétido a todos os narizes, recifenses ou paulistas.

Vi o mangue, mas não tive coragem de catar lixo, pegar caranguejo, e conversar com urubu, como diz a música...

Não tenho o aproach necessário, nem coragem, porque, como disse, a coisa pega aqui, não é para amadores, que o diga o DJ Big, grande negão de trabalhos sociais fantásticos, ou o antenadíssimo Valdélio, de tatoos e toques mil.

Ai, ai, nossa Veneza brasileira está com seus canais mais fedidos do que nunca, embora o Grande Canal original, o veneziano mesmo, tenha fedor no verão para espalhar pela Itália toda - vocês viram que tem uns italianos querendo resgatar as tradições do fascismo, Mussolini redivivo? Eu, heim...

Aqui pertinho, em Boa Viagem, acabo de ver a valorosa polícia pernambucana dando uma geral num ponto de ônibus. Eram mais de 20 garotos de mãozinha na cabeça, levando porrada de meganha, como se dar porrada em neguinho em ponto de ônibus ajudasse a diminuir a criminalidade no Estado do Brasil com maior número de homicídios per capita.

Capita per capita, fico com a do Xico Sá, pernambucano paulista que deixa saudades por aqui, e ensina a ver o não-sertão pernambucano com outros olhos.

Como olhar essa miséria toda que cerca o luxo da metrópole nordestina com olhos sem piedade, porque a piedade é um horror, ensinou-se outro dia um cego curitibano?

Da lama ao caos, e ali está a minha amiga caída na cama, abatida por uma virose, que nada tem a ver com Pernambuco, é virose paulista mesmo, mas que entristece ainda mais a noite de sábado em uma Recife em que os tambores estão de fato silenciosos, porque, embora as rádios na periferia estejam com o volume no último e os raps daqui, como os daí, rejeitem a polícia, amanhã é dia de exercer o dever cívico do voto.

Mais uma vez: eu, heim!

Voto devia ser que nem idealmente tudo: opção, faculdade de dizer sim, de dizer não ou de não dizer nada.

Pelo bem da democracia que não temos ainda e quiçá nunca teremos, não voto.

Claro que com um certo quê de anarquismo, graças a Deus...

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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