Luiz Caversan
Um mundo de deprimidos
Dizem os especialistas, e também informa a experiência pessoal, que a depressão é uma doença, ou um conjunto de sintomas, que afeta fortemente um lado bem sinistro do imaginário humano. Aquele canto do cérebro especialista em maus pensamentos, previsões catastróficas, medos em relação ao futuro incerto, por mais certo que ele possa parecer.
Assim, quem deprime acha, no limite, que vai morrer. E antes disso, pode também achar, e isso é freqüente, que vai sofrer um acidente, perder uma pessoa querida, ser despedido do emprego, ser assaltado, ficar irremediavelmente pobre, miserável.
Este último sintoma é clássico, sobretudo em países desenvolvidos, como Alemanha, por exemplo.
Naquele país, os tais especialistas anotam como um sintoma recorrente de depressão psicótica o que eles chamam de "delírio do empobrecimento", ou "delírio da ruína". Funciona assim: além dos sintomas tradicionais da depressão, como melancolia permanente, problemas com o sono e com o apetite, desejo de morte, falta de ânimo pra tudo, o cidadão acha porque acha que vai ficar na miséria. Que isso é apenas uma questão de tempo. Não importa que ele tenha dinheiro no banco, plano de saúde, seguro e tal. Ele se sente tão doente, tão incapacitado que vivencia de uma forma violenta essa sensação de que restará completamente desassistido, desamparado, sem recursos para se manter. O que, obviamente, aumenta ainda mais sua desgraça.
Bem, pelo que se pode ver nas páginas dos jornais, nos sites e na TV, parece até que, senão o mundo todo, pelo menos boa parte está sofrendo um abrupto surto de depressão. Que atire a primeira pedra aquele que tem algum investimento na bolsa, dinheiro no banco, dívidas para pagar em financiamento que não esteja tendo, ainda que por um lapso, a estranha sensação que vai perder tudo. Que a pobreza está ali na esquina, espreitando todo o mundo, chegando, chegando...
Por mais que argumentem, por mais que prevejam, por mais que tentem encontrar uma rota de escape, ninguém consegue explicar exatamente o que está acontecendo.
E para aqueles que não têm outra alternativa a não ser esperar, deixar como está para ver como fica, ou seja, quase todos nós, resta esse incômodo sentimento que até outro dia pertencia apenas às tristes fantasias dos deprimidos.
Delírio de ruína...
Tomara que fique apenas no delírio, mesmo.
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Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |
