Luiz Caversan
O homem e o filho do homem
Como é pequeno este vasto mundo, pensei enquanto me comovia com os olhos marejados do meu amigo. Pequeno, mas dá tantas voltas...
Ele, o amigo, acabara de chegar da viagem mais emocional da sua vida, ele que viaja tanto, por conta da profissão já esteve inúmeras vezes em todos os continentes, recantos dos mais longínquos. Mas, jornada como essa, difícil...
Quando tinha 20 anos, fez uma de suas primeiras viagens, França, Paris e tudo de bom que pode acontecer por lá. E aconteceu, aconteceu de ter um affair com uma moça, a qual poderia ter mudado sua vida duas décadas atrás. Mas não mudou, pelo menos naquela volta que o mundo estava dando.
Um, dois, três anos depois, quando inclusive tinha descoberto que sua orientação sexual nunca mais o aproximaria de moças, francesas ou não, veio a notícia-bomba. Como resultado daquela noite fugidia, que jamais se repetiria, a moça engravidou. Mais: tivera o bebê, um menino, que ia muito bem, obrigado, e segundo ela não precisaria nem sequer conhecer o pai.
Como assim?!
Meu amigo, já então resoluto como o quê, não se fez de rogado e na primeira oportunidade voltou a Paris para conhecer a criança, a despeito da má vontade da mãe, para quem o direito de ter o filho era apenas dela, servindo meu pobre amigo, inadvertidamente, de mero reprodutor.
Na base da insistência, ele acabou vendo o pimpolho apenas uma, duas vezes, porque num belo dia a mulher mudou de endereço, sumiu e nunca mais deu notícias.
Foram duas décadas inteiras em que meu amigo teve de conviver apenas com a idéia da paternidade. Mas da paternidade interrompida, negada, ele que, todos seus próximos sabiam muito bem, sempre seria um pai exemplar; que, na ausência do filho verdadeiro, amealhou afilhados que cobria de afetos, o mesmo fazendo com os sobrinhos e com sua legião interminável de amigos, muitos deles verdadeiros fãs.
Mas e o filho, onde andaria, perguntava freqüentemente o coração apertado.
Sempre que podia, tentava descobrir o paradeiro da moça, um contato que fosse, mas nada.
O tempo passando, a vida seguinte e eis que de repente, numa outra volta que o mundo deu, talvez e provavelmente sincronizada com aquela primeira de mais de 20 anos atrás, lá estava uma pista certa, via internet, no Orkut.
Nome, sobrenome, data de nascimento e alguns poucos outros detalhes ele sabia, tratou portanto de insistir com dedicação e --bingo! Lá estava o filho, já não mais nem bebê, nem menino, mas um rapaz.
O primeiro e tímido contato, sem ainda dizer nada sobre a paternidade, evoluiu para uma série de outras mensagens trocadas pela rede de computadores, a aproximação foi naturalmente acontecendo cuidadosa e arredia no começo, abrindo-se lentamente em seguida, detalhes da vida surgindo, até que meu amigo ousou contar a verdade. Além de ser brasileiro, carioca, conhecer sua mãe, eu sou seu pai...
Bem, para encurtar a história, passado o choque inicial, a conversa evoluiu muito e bem, apesar do medo do meu amigo quanto à reação do garoto sobre a orientação sexual (ainda não revelada) de um pai que ele nunca conheceu e que surgia agora pela internet 20 anos depois. O que fazer?
Ir de novo a Paris e colocar as coisas em pratos limpos, decidiu meu amigo, com o coração apertado.
E foi isso que aconteceu, numa outra voltinha desse mundo ocupado por seres especializados em encontros e desencontros.
No caso, um bom encontro. Querido, seu filho mora em Paris, é um cosmopolita, vai entender tudo e bem, eu previ ao estimular a ida do amigo atrás de sua própria história. E foi o que sucedeu numa série de encontros e muitas conversas, mas que não deixaram meu amigo totalmente em paz, porque o moço lá ainda permanecia arredio, e o amigo aqui, inseguro e culpado sem saber exatamente com culpa de quê.
Voltou ao Brasil, com a história ainda por completar...
Bem, mas, como disse, somos, nós humanos, especialistas na arte de chegar e partir, entender e divergir, afastar e aproximar, nesse eterno movimento de pulsação da vida, de sorte que meu amigo acaba de retornar de uma nova viagem em busca do filho perdido, agora plenamente encontrado.
Aparadas todas as arestas, afastados todos os receios, os dois se descobriram por inteiro e estão completamente apaixonados, no melhor e mais amplo sentido da palavra família. Pai e filho, já com milhares de planos de retomar o tempo que os afastou, divertindo-se em descobrir semelhanças (pela foto que vi, a cara de um é o focinho do outro...), o rapaz aproveitará as férias de verão do próximo ano para conhecer o Rio e, claro, rapidamente se tornará carioca desde criancinha.
Pois os olhos do meu amigo estavam marejados e a voz meio embargada justamente quando me contava tudo isso, transbordando de felicidade e afeto. Puxa vida, eu pai de um rapaz tão bacana a esta altura da vida?
Que bela vida, não?, que não só dói nas perdas e incongruências, não só pune os incautos e também os moderados, mas premia e contempla e conforta quando menos se espera.
Quem aqui tem filho saberá exatamente do que se trata, o que é a emoção de, mesmo com 20 anos de distância, você ouvir seu filho olhando nos seus olhos e te dizendo: Eu te amo!
Ou, no caso, je t'aime...
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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online. E-mail: caversan@uol.com.br |

