Pensata

Luiz Caversan

10/01/2009

O touro e a crise

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A doce monja Coen, líder budista que contribui com suas palavras e ações para que São Paulo seja uma cidade melhor, manda bons augúrios para 2009, lembrando tratar-se, este, do ano do touro.

Antes de ir pesquisar no horóscopo chinês as características do signo que atribui os contornos espirituais deste ano (além de compor uma das estações do zodíaco), fico cá imaginando o touro ruminando por aí em meio a tantos medos, receios, indefinições e inseguranças relacionadas à crise financeira que faz o horizonte destes próximos 12 meses se apresentar no mínimo tenebroso, deixando as almas inquietas e os relacionamentos tensos.

O que primeiro salta, numa reflexão, é a solidez do touro, sua compleição atarracada e sua fixação ao solo, o qual domina a ponto de parecer parte integrante da paisagem. A seguir ocorre a imagem do touro como bicho trabalhador, possante, fabril, puxando aquelas carroças enormes de rodas imensas, rangendo sua sina pelos intermináveis sertões deste e de outros países, ajudando a construí-los e a consolidá-los, como ocorreu ao longo de tantos anos.

Por fim, eis o touro como reprodutor da espécie que mantém a humanidade basicamente alimentada, fornecendo a carne, o leite, a manteiga, o queijo, uma missão por si suficiente para enobrecê-lo.

Só então vou lá ver pela internet as coisas de touro como ano chinês e descubro que o bichão representa a paciência, o trabalho e a prosperidade, mas também um pouco de turrice e mesmo de preconceito, mas tudo bem, a primeira parte já me basta.

Daí vem a necessidade de cruzar a informação oriental com os desígnios do signo de touro no nosso tradicional horóscopo, e neste caso nada melhor que consultar a fera no assunto Barbara Abramo, aqui mesmo na Folha Online, para saber que: "Touro representa o trabalho, o esforço de materialização do impulso vital (...).

Touro ensina as pessoas a se adaptarem às circunstâncias reais, trabalhando com afinco para alterarem o que lhes desagrada. (...) Acostumado às pressões, persistente, determinado, vai o touro seguindo seu caminho em seu passo lento, arando a terra e alimentando os outros seres vivos."

Bem, obviamente estamos aqui no campo da simbologia, e, se for por aí, pode-se até argumentar que o touro é também o símbolo de Wall Street (há uma imensa estátua de bronze do animal na rua do dinheiro de Nova York), e como se sabe foi ali que começou a tsumani financeira que por aqui, dizem e espera-se, chegará como uma "marolinha".

Chegando ou não a própria, o fantasma da crise já se instalou, e medo, insegurança e ansiedade já podem ser sentidos mesmo entre aqueles que não têm, ao menos por enquanto, motivos para sofrer.

Mas sofre-se, como tradicional característica da ansiedade, por antecipação, e o transtorno psicológico pode adquirir tal monta que só mesmo a placidez e a perseverança do touro para nos inspirar, de maneira que o estrago possível seja minimizado.

Ontem mesmo a jornalista Mara Luquet, que sabe tudo de finanças pessoais, comentava que o impacto psicológico do desemprego, da perda de bens, de poder aquisitivo e de status é muito maior do que o problema da falta de dinheiro propriamente dita. Citando diversas pesquisas, Mara lembrava o quanto é desagregador para a família a depressão e o desânimo do pai, a irritabilidade e a tensão da mãe, a falta de iniciativa de ambos e a diluição da personalidade familiar quando os filhos são bombardeados por essa sequência de perdas.

Daí, talvez, a pertinência de se recorrer a símbolos, sejam eles familiares, afetivos e até mesmo mitológicos, como é o caso do touro, para que referências básicas e fundamentais permaneçam, ainda que abalroadas pelas finanças prejudicadas ou em vias de sê-lo, para que se possa, ao menos, começar a viver este ano, por mais difícil que ele possa parecer.

Ano de trabalho, persistência e superação: assim espero, caro leitor, para você e sua família.

Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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