Pensata

Luiz Caversan

25/07/2009

Concretismo, Twitter e gritaria digital

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O homem passa na vitrine, do lado de fora da vitrine, como num filme. Para, olha a fachada do café onde estou, murmura alguma coisa e segue seu caminho, na praça Vilaboin, São Paulo. A praça, no fim da tarde, ainda é agradável, sem engarrafamentos nem buzinas, assim como boa parte desse canto de São Paulo, que é Higienópolis.

É o bairro das senhorinhas, elegantes senhorinhas paulistanas a quem não se deve chamar de idosas porque estão todas muito catitas, desfilando modelitos de inverno encimados por seus indefectíveis cabelos azulados, peruca ou não.

Reprodução
"Beba Coca Cola"(Décio Pignatari, 1957)
"Beba Coca Cola"(Décio Pignatari, 1957)

E foi ali que vi o poeta concreto, um dos últimos dos autênticos, passeando com o óculos ajeitado com um esparadrapo branco. Quando você vê uma pessoa com trajes de tons neutros, barba (no caso dele, tradicional), óculos de aro grosso e aquele bonezinho que na Itália se chama coppola, pronto: eis um intelectual, (no caso, totalmente autêntico).

Fui caminhar na tarde de inverno pelas ruas do que talvez seja o bairro mais burguês (stricto sensu) de São Paulo, depois de ter presenciado, no centro da cidade, o rapa espantar dezenas de ambulantes, pegando a muamba de apenas um, para quem o guardinha, cassetete em riste, disse, apreendendo suas coisas: "Já era, véio!".

Centro velho de São Paulo, terça-feira fim da manhã: muito mais gente vendendo (de tudo, ouro, crédito, ervas ou chiclete) do que comprando. Como em todo lugar onde há muita gente, em qualquer canto do mundo, havia muita gente feia. Maltratada, o jeans como uniforme, correndo com expressões preocupadas, conversando insistentemente em celulares luminosos, falando alto e fazendo do centrão de São Paulo o que sempre foi: uma zona.

Zona que aliás remeteu, mais tarde, para a minha estreia na gritaria digital que é o Twitter.

Engraçado aquela coisa de todo mundo falando ao mesmo tempo, achei divertido e absolutamente dinâmico.

Se você pega e lê verticalmente um pouco do que cada um daqueles que você acompanha diz, parece que está tentando acompanhar um romance lisérgico feito de gotas de uma realidade aumentada, às vezes muito interessante, no átimo seguinte absolutamente fútil.

Foi um dia de animação digital, tanto que resolvi postar coisas que pensava estar fazendo ou que fazia enquanto pensava ou os dois.

O fato é que ao ver a conta do Twitter que uma muito amiga abrira para mim, verifiquei que tinha nada menos que 70 e tantos seguidores!

O que definitivamente me estimulou a ir em frente; e fui, tanto que lá estou, dizendo nada para sei lá quem.

Pelo menos é essa a sensação que ainda tenho, ou seja, como disse o David Letterman, para ser detonado pelos radicais de plantão, que se trata, o Twitter, de uma tremenda perda de tempo.

A conferir.

Por enquanto, vamos nessa, e vou tuitando para ver que bicho vai dar...

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Luiz Caversan, 54, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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