Sérgio Malbergier
Seis anos que abalaram o mundo
Costumo brincar que, depois das vítimas diretas e indiretas dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos EUA, fui um dos mais atingidos pela mãe de todos os atentados terroristas. Era editor do caderno Mundo e, como sempre, acordei com a TV-despertador sintonizada na CNN.
Na tela, a Torre Norte do World Trade Center, em chamas, e uma legenda bizarra dizendo que aquelas cenas, surreais, eram reais.
Dia duro pela frente, pensei. Avião bate no maior arranha-céu de Nova York, com mortos e feridos no coração financeiro do planeta. Minutos depois, o segundo Boeing explodia no paredão de vidro e aço da Torre Sul, prova de que aquilo era muuuuuito mais que um acidente.
Saí correndo para o jornal, no que seria uma edição tão histórica quanto os eventos trágicos daquela manhã perversamente ensolarada em Manhattan. Todas as páginas e jornalistas da Folha dedicaram-se à cobertura dos atentados, agora completando seis anos que abalaram o mundo.
A primeira reação mundial, com as exceções previsíveis de extremistas islâmicos e esquerdóides, unidos pelo ódio aos EUA, foi de apoio aos americanos e mesmo às primeiras medidas do presidente George W. Bush. A derrubada, meses depois, do regime tirânico e obscurantista do Taleban teve aprovação quase unânime.
Aí veio a invasão ilegal do Iraque, muito eficiente na destituição do sanguinário Saddam Hussein e incrivelmente desastrosa desde então. Os EUA de Bush foram de vítimas dignas de empatia a símbolos do mal para multidões.
Mas se parte das críticas às ações dos EUA no Iraque e na guerra ao terrorismo são justificáveis, o antiamericanismo disseminado é um grande equívoco. Independentemente do governo Bush, os EUA seguem como força positiva no mundo. São a locomotiva econômica do planeta --sob Bush, o PIB do país teve crescimento vigoroso. E, é preciso dizer, são força imprescindível na defesa dos direitos humanos em várias regiões do planeta, por mais estranha que essa afirmação pareça a muitos hoje.
Exemplos: São os EUA que tentam conter milícias árabes que massacram aldeias inteiras em Darfur, Sudão, enquanto a China financia o regime sudanês por trás das milícias. São os EUA que pressionam a Rússia do neoczar Vladimir Putin a não fechar o regime completamente. São os EUA que lideram os protestos contra a ditadura de Myanmar (ex-Burma).
E são os EUA que dão ao mundo inovações fundamentais, da internet ao YouTube.
Mesmo abaladas pela administração Bush, as tradições americanas de defesa das liberdades individuais e coletivas, enraizadas desde a Revolução Americana do séc. 18, seguem firmes e fortes. E o resultado das eleições legislativas de 2006, com os democratas retomando o controle do Congresso, já sinaliza o fim da maioria republicana que o arquiteto político de Bush, Karl Rove, previa que fosse durar décadas graças ao vigor da nova direita religiosa do país.
Para as eleições de 2008, os democratas saem como favoritos, e mesmo o republicano que vai melhor nas pesquisas, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, é mais liberal que muitos democratas.
A era Bush tem data marcada para acabar, e o antiamericanismo deve refluir. Bom para o planeta. Espera-se que, num movimento inverso, aumente o apoio global à guerra contra o terrorismo. É uma guerra justa, o terrorismo é injustificável. E está cada vez mais disseminado, como atesta a lista crescente de alvos do terror islâmico desde o 11 de Setembro: Madri, Londres, Glasgow, Casablanca, Riad, Cabul, Islamabad, Bagdá, Amã, Cairo, Bali, Jakarta...
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
