Pensata

Sérgio Malbergier

27/09/2007

Ahmadinejad em Columbia

Quem crê em choque de civilizações fartou-se com a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, à Universidade Columbia, em Nova York, atendendo a convite para debater as idéias que o tornaram especialmente infame na cidade: sua negação do Holocausto e seu objetivo declarado de eliminar Israel do mapa. Isso tudo dito enquanto seu país acelera um programa nuclear clandestino.

Roma pós-moderna, capital financeira mundial e epicentro de tendências, Nova York é um dos centros também do poder judaico. Manhattan, no início dos anos 1990, chegou inclusive a ter maioria de habitantes judaica, estampou à época um orgulhoso "New York Times".

Já Columbia preza-se como arena importante do debate global. E assim foi justificado o convite ao iraniano, apesar dos protestos.

Do lado de fora, centenas de manifestantes, quase todos contra Ahmedinejad e/ou o governo Bush. Uma delas, exibida na CNN, espalhou sua mensagem antibélica pelo traje sumário. "No", dizia o lado direito do seu top, "war", estampava o esquerdo. "On Iran", concluía a traseira do short, que a moça empinou diante da câmera. Uma mulher usando sua liberdade de exprimir-se seminua nas ruas de Nova York defendia um país que a prenderia se agisse daquele jeito em Teerã.

A cena lembrou-me do genial escritor canadense-americano Saul Bellow (1915-2005) e seu imperdível romance "O Planeta do Sr. Sammler" (1970).

Sobrevivente da guerra nazista contra os judeus, Sammler habita Nova York no seminal final dos anos 1960, palestrante ocasional da mesma Universidade Columbia, assustado com o liberalismo, o egocentrismo, a violência urbana e a velocidade do novo mundo.

Carregando fundo as marcas da tentativa parcialmente bem-sucedida da Alemanha nazista de exterminar os judeus (exterminou de fato mais de 6 milhões e, com eles, o peculiar e intenso modo de vida judaico do centro-leste europeu), Sammler teme o futuro: "Assim como muitas pessoas que assistiram ao colapso do mundo, numa primeira ocasião, o Sr. Sammler admitia a possibilidade de que aquilo pudesse acontecer uma segunda vez", escreveu Bellow.

A possibilidade nunca foi tão palpável. A cada vez mais possível obtenção de arsenal atômico pelo Irã e seu uso contra Israel tornou-se o maior temor do judaísmo hoje, ultrapassando a assimilação acelerada. Dos cerca de 13 milhões de judeus no mundo, cerca de 41%, ou mais de 5 milhões, vivem em Israel.

Ameaçar a existência do país com arma nuclear é ameaçar um novo Holocausto, 60 anos depois do terror nazista que levou a envergonhada comunidade internacional, por meio da ONU, a criar, dois anos depois da Segunda Guerra (1939-45), um Estado judeu na partilha da Palestina de 1947. Que criou também, é importante ressaltar, um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia, o que não foi aceito pelos árabes, que atacaram Israel após a saída dos colonizadores britânicos, em 1948.

E, não se engane, quem pragueja pelo fim de Israel pragueja contra os judeus em geral. Ahmadinejad age nas duas frentes, com cinismo extremo. Ao tentar justificar sua negação do Holocausto e o congresso sobre o tema que promoveu em Teerã, disse em Columbia que estava apenas estimulando a pesquisa, a busca do saber, e não entendia como uma respeitada universidade pudesse ser contra a empreitada acadêmica.

Uau! Seria como dizer que não se pode ser contra uma linha de pesquisa que negue a existência da escravidão no Brasil porque seria uma postura antiacadêmica, contra o saudável questionamento científico.

Mas como a demonização de Israel, um dos grandes equívocos contemporâneos, é aceitável em círculos cada vez maiores, talvez seja preciso expor Ahmadinejad por outras razões que não seu anti-sionismo/anti-semitismo. Que tal então pelo seu ataque, na mesma Columbia, a outro grupo não por mera coincidência vítima da intolerância nazista, os homossexuais? "Não temos homossexuais no Irã", disse Ahmadinejad quando questionado agressivamente pelo presidente de Columbia, Lee Bolinger, sobre as denúncias de perseguição aos homossexuais em seu país.

Ahmadinejad em Columbia deveria servir de marco na reflexão sobre o Oriente Médio hoje, de como seu discurso e a deslegitimização de Israel são perigosos. Mas isso dificilmente ocorrerá. Mais provável até que tenha angariado mais admiradores a sua causa.

Como reflete Sammler já no primeiro parágrafo do livro de Bellow, é "preciso ser um maníaco para insistir em ter razão". Se o debate e o convencimento já eram difíceis em 1969, em 2007, apogeu do relativismo, Ahmadinejad é recebido como estadista em vários países do mundo. Que negue o extermínio de 6 milhões de judeus indefesos na Segunda Guerra e pregue o fim de Israel parecem ser "detalhes" insuficientes para torná-lo indesejável.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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