Pensata

Sérgio Malbergier

11/10/2007

Tropa do Povo

O Brasil se transforma. A economia ganha fôlego, tracionada pelo mercado global. Mesmo que tardio, o consenso pós-Lula de que devemos jogar dentro das regras do capitalismo propulsiona os negócios, os empregos, os investimentos.

E esse avanço econômico, base de qualquer progresso, deve ser usado para avançarmos em várias áreas muito atrasadas do país. Um outro novo consenso, mesmo que tardio, deve ser buscado na segurança pública.

Quase 50 mil homicídios são cometidos todo ano no Brasil. É pouco menos do que as 58 mil mortes americanas nos muitos anos da Guerra do Vietnã (1959-1975). É preciso agir.

Já passou o tempo de dizer que a violência urbana é um problema social, que só melhorará quando o Brasil avançar para uma sociedade mais justa. O argumento é enganador. É vomitado há décadas e há décadas o país sofre com a falta de segurança pessoal, um direito humano básico.

Enquanto se defendia o avanço social e econômico para resolver a violência, o homicídio entre jovens de 15 a 24 anos no Brasil quase dobrou de 1980 a 2000, de 30/100 mil habitantes para 52/100 mil habitantes. E esses milhares de jovens vinham esmagadoramente de famílias de menor renda, dilaceradas pela nossa guerra civil periférica.

Pois os pobres, não tenha dúvida, são os que mais sofrem com a criminalidade. Quanto mais rico, maior a condição de se proteger física e financeiramente da insegurança geral, enquanto a bandidagem deixa a terra arrasada em várias famílias e comunidades de baixa renda.

Nossos políticos, como sempre, fazem a coisa errada. Se estivessem fazendo a coisa certa, a situação já teria melhorado. Nova York, Cidade do México e Bogotá são exemplos, alguns muito próximos, de que é possível melhorar, tentar melhorar.

Nossos políticos até falam de segurança pública na época das eleições, mas, como muitos deles são corruptos, talvez não sejam capazes de combater a corrupção que trava nossas polícias, como bem mostrou o eletrizante "Tropa de Elite".

O filme gerou debate intenso e merecido nos cadernos de cultura, mas quase nada ouvimos das autoridades sobre o descalabro em nossas polícias retratado talentosamente nas telas.

O diretor José Padilha, que já tinha feito uma obra-prima em "Ônibus 174" (2002), e o ator Wagner Moura criaram um personagem denso e intenso na figura do capitão Nascimento, um policial que parece bem intencionado cercado pela lama policial carioca e seus morros, onde a lei é a da bala de calibre mais grosso.

"Chamem o comandante Nascimento", gritou o artista de TV e ongueiro Luciano Huck em instigante texto na página Tendências/Debates na Folha de S. Paulo após ter seu rolex roubado por dupla de motoqueiros em São Paulo. O desabafo de Huck gerou de fato muito debate, o assunto está na boca do povo, que quer mudanças.

Alguns leitores, ingênuos ou desinformados, reclamaram da reclamação do milionário Huck, como se ele (ou os ricos em geral) não tivesse direito de se revoltar com a insegurança pública.

Ingênuo talvez, mas muito melhor informado que nós, o escritor Ferréz respondeu a Huck em outro artigo na seção "Tendência/Debates". Imprescindível voz da periferia, Ferréz precisa participar desse debate, até porque, como morador do Capão Redondo, sabe muito mais da periferia e de sua violência.

Em seu texto, Ferréz nos ensina, por exemplo, que os bandidos que roubaram o rolex novinho dado a Huck por sua esposa Angélica saíram numa "missão, que é como todos chamam fazer um assalto".

E segue cuspindo fogo, recriando o assalto pela ótica do criminoso: "A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!"

Tocante o argumento, mas, creio, falso, errado, enganador.

Robin Hoods não existem. Roubar dos ricos para dar aos pobres não funciona como distribuição de renda nem tira ninguém da miséria. Sob Lula, aliás, a desigualdade de renda cai um pouco, graças a seus aumentos do salário mínimo acima da inflação e ao próprio crescimento econômico. É assim que a criminalidade aguda irá recuar no longo prazo.

No curto prazo, a polícia e o Judiciário precisam agir. Contra bandidinhos em motos e bandidões em carros blindados.

Como bem disse Huck, pagamos impostos, muitos impostos, para isso.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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