Pensata

Sérgio Malbergier

25/10/2007

Lendo Lula em Paris

Sair do Brasil traz no mínimo uma grande vantagem: ver o país de outros ângulos. O carioca Alfredo Valadão é catedrático numa das principais escolas de ensino superior da França, a Sciences Po, cuidando dos estudos sobre o Mercosul. Vive há 30 anos na Europa, mas volta muito ao Brasil. O país, para ele, parece o garotão que fez 18 anos e quer tocar sua própria vida, está "aprendendo a viver". Os desafios e as responsabilidades crescem, o momento pode ser decisivo. Ou desperdiçado.

"O Brasil entrou definitivamente no radar", diz Valadão em seu escritório no boulevard Saint Germain, listando quatro passos verde-amarelos que cativaram a atenção global: a liderança na bioenergia, o envio de tropas de manutenção da paz ao Haiti, a liderança obtida nas negociações multilaterais para liberar o comércio mundial e o papel assumido de força moderadora e democrática na América Latina, contrapondo-se ao neopopulismo radical do venezuelano Hugo Chávez (enquanto se mantém como interlocutor essencial do caudilho petroleiro).

A manutenção de uma política econômica estável, com regras previsíveis, é outra conquista brasileira de já quase 15 anos que, quanto mais durar, mais benefícos trará.

Mas essa maior força econômica e projeção externa, graças a políticas já esboçadas nos governos Itamar/FHC e mantidas ou intensificadas por Lula, traz junto as dores do crescimento. O Brasil terá que se posicionar mais sobre os grandes temas do planeta, inclusive assumir uma política de defesa com mais dentes, já que nosso vizinho venezuelano segue rearmando suas Forças Armadas agressivamente, armando suas milícias perigosamente e fechando seu regime progessivamente. Tem tudo para acabar mal.

E se domar a hiperinflação e elevar a estabilidade econômica foi um empreendimento brasileiro bem realizado e mantido, o país parece ter atingido limites, notóriamente no campo político-institucional. Para irmos além do mero progresso material, ele mesmo tímido diante de nossas possibilidades e da conjuntura mundial extremamente favorável, é preciso crescer sobretudo institucionalmente.

Mas está difícil. Muitas de nossas empresas amadureceram, se internacionalizaram, evoluiram. Mas nossas instituições estão estagnadas ou definham. Poucas se salvam. Nosso avanço foi só material. É esse o verdadeiro materialismo de Lula, e é pouco.

Está no título da Pensata de minha admirável colega de jornal Eliane Cantanhede, sobre a absolvição do senador tucano Eduardo Azeredo no Senado em troca do apoio do PSDB à CPMF: "Troca, troca e nada muda". Assim não iremos longe. Precisamos mudar.

Como me disse um diplomata francês com anos de América do Sul, inclusive de Brasil: os debates e problemas são os mesmos há anos, os temas não mudam, os nós não desatam.

É isso.

Todos sabem que nosso sistema tributário é inviável, caótico, burro. Todos sabem que é urgente atacar a corrupção policial-politica-judiciária-executiva-legislativa-empresarial. Mas o que é feito? A imprensa grita todo dia, empilhando evidências sobre evidências dos desmandos feitos na luz do dia. E nada acontece, ninguém paga. A festa de arromba país continua. O Brasil parece condenado a ser para sempre a nação do futuro.

O jornalista viajou a Paris a convite do governo francês.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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