Sérgio Malbergier
Sarkozy versus Lula
"O pacto social será decisivo para viabilizar as reformas que a sociedade brasileira reclama e que eu me comprometi a fazer: a reforma da Previdência, reforma tributária, reforma política e da legislação trabalhista."
As promessas são do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pronunciadas em seu discurso de posse ainda do primeiro mandato, no primeiro dia de 2003. Do tal pacto social ninguém nunca mais ouviu falar. Ao contrário, quando acuado por sólidas suspeitas de corrupção, o governo petista apostou na cisão social, inventando um conflito entre elites golpistas e pobres petistas.
Já as reformas, que iriam "impulsionar um novo ciclo do desenvolvimento", nenhuma foi realizada de verdade, apesar, sempre seguindo o discurso inaugural, de "um momento particularmente propício para isso, um momento raro da vida de um povo, em que o presidente da República tem consigo, ao seu lado, a vontade de um povo".
Lula acertou na retórica, mas erra profundamente na execução. Já perdemos cinco anos, mesmo após uma reeleição consagradora com 58 milhões de votos, sólida maioria parlamentar, alta popularidade, crescimento econômico acima da média recente. Do que mais o presidente precisa para realizar seu compromisso de posse?
Corta para a França.
Nicolas Sarkozy elege-se presidente em maio último. Sua plataforma gravita em torno de reformas previdenciária, trabalhista, tributária. Em junho, após o segundo turno das eleições legislativas lhe dar sólida base parlamentar, o presidente convoca a Assembléia Nacional para sessão extraordinária durante o recesso de verão e inicia a aprovação de seu pacote de reformas. Agora o neodireitista francês enfrenta greves de setores ameaçados pelas mudanças, notoriamente o funcionalismo público, que resiste punindo todos os cidadãos com paralisações impopulares, ecos de um tempo que passou.
A diferença entre Lula e Sarkozy se explica mais pelas diferenças políticas entre Brasil e França que pelas personalidades de seus presidentes.
A França é um país politicamente avançado, de instituições fortes e tradições democráticas. A burocracia francesa é técnica, profissional, não muda de acordo com o partido do poder. Já o Brasil (onde as reformas e o desenvolvimento são muito mais urgentes) ainda engatinha rumo à democracia, às vezes parece até que dá marcha a ré, com a imaturidade política e o fisiologismo ditando o (des)caminho do Congresso Nacional.
Lula não é o único sem competência para governar de forma efetiva. Como escreveu o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, em coluna do caderno Dinheiro (05/08/07): "Desde que, há 22 anos, terminou a ditadura, a história do Brasil tem sido uma sucessão de falsos começos". Ele chama as maiorias governistas no Parlamento brasileiro de "maioria não para fazer, mas para não fazer". Exato!
Assistimos assim, impotentes, a esse espetáculo grotesco e impávido de troca-troca fisiológico, onde a maioria governista é formada apenas em torno da repartição de recursos/cargos públicos para benefício de grupos com interesses divergentes dos nacionais. É o eterno retorno do centrão. Essa pilhagem do Estado, vendida como preço da governabilidade, não passa de pilhagem do Estado.
Tanto PSDB quanto PT, que juntos comandam enorme maioria e poder neste país, defendem praticamente as mesmas reformas como prioritárias e indispensáveis. O primeiro não teve e o segundo não tem competência para tocá-las.
O maior problema do Brasil é político. E não há perspectiva de melhoras nessa área.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
