Sérgio Malbergier
Timão e timinhos
Foi uma explosão de alegria em Pinheiros e, depois soube, pelos quatro cantos de São Paulo e mesmo em outros Estados. O Corinthians descia à segunda divisão, e pouco depois Lula aparecia na TV para dizer que aquele era "um dia histórico".
O presidente, corintiano roxo, falava da inauguração precária da TV digital no país, mas poderia também se referir à queda do alvinegro às profundezas da Série B do Brasileirão. Nunca antes na história desse país o Corinthians havia caído ao segundo escalão do futebol nos torneios em pontos corridos, e quero ver Lula listar isso também como mais uma obra de seu projeto de criação do Brasil.
O "timão" tem mais de 10 milhões de torcedores, concentrados no Estado de São Paulo, o mais rico do Brasil, com uma renda per capita similar a da Turquia, por exemplo, país que consegue levar nossos jogadores e formar times competitivos nos campeonatos europeus, os melhores do mundo. Mas apesar dessa riqueza potencial, o Corinthians (e praticamente todos os times nacionais) é dirigido como se fosse, digamos, o Senado Federal.
Que essa paixão nacional não consiga ser transformada em força econômica capaz de montar times eficientes, lucrativos, que possam construir bons estádios e equipes de dar orgulho a torcedores e lucros a seus controladores é prova de nossa incapacidade gerencial e de como ainda estamos a anos-luz do capitalismo criativo, que transforma, por exemplo, equipes de basquete, beisebol e futebol americano em máquinas de gerar dinheiro e diversão a milhões e milhões de pessoas nos EUA e pelo mundo.
Aqui, ao invés de times de projeção internacional, temos que nos contentar com timinhos de terceira ou quarta linha enquanto nossos craques dão alegrias a espanhóis, italianos, ingleses, portugueses, franceses, russos, ucranianos... Mesmo o São Paulo, de longe o time mais bem organizado do país, não consegue manter jogadores de classe mundial por mais de uma ou duas temporadas, com a honrosa exceção do grande Rogério Ceni (sim, sou são-paulino).
Não que precisássemos (após nova absolvição de Renan Calheiros no Senado) provas de nossa incompetência como nação, mas a derrota corintiana, que tanto encheu de alegria ou tristeza milhões e milhões de brasileiros, traz essa incompetência mais perto da população, que não quer saber de política, mas deveria saber que a derrocada corintiana é também fruto de nosso subdesenvolvimento institucional.
Ajudam a bola a rolar quadrada nos campos brasileiros o Judiciário e a Receita Federal (por não coibirem os descaminhos na administração dos clubes e no mercado de jogadores) e o Executivo e o Congresso (pela criação de leis como a da Timemania, que enfia dinheiro nos cofres dos clubes sem cobrar gestão eficiente). E ainda temos, claro, a CBF de Ricardo Teixeira, que nomeia um técnico que nunca foi técnico para comandar a seleção mais importante do mundo e não dá a mínima para o estado deprimente de nossos clubes e campeonatos. Na verdade, se aproveita dessa fraqueza para governar de forma inapelável.
Voltando ao Corinthians, mais duas coisas: 1) a queda vai eletrizar a segundona com sua torcida apaixonada e jogos aguerridos, que devem trazer recordes de público e emoção; 2) como são-paulino, admito que a satisfação com o rebaixamento foi até maior que a com o pentacampeonato tricolor, afinal somos campeões de alguma coisa quase todo ano, e o Corinthians rebaixado foi só essa vez. Boa sorte ao timão.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
