Sérgio Malbergier
007, os números
Apesar dos políticos, 2007 foi um ano bom para o Brasil, graças a avanços econômicos que, bem cultivados, podem nos levar a patamares nunca dantes de prosperidade e estabilidade.
Os números que o digam:
Emprego e renda
O ano deve fechar com a criação de cerca de 1,7 milhão de postos de trabalho com carteira assinada, recorde histórico. A taxa de desemprego medida pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas do país caiu a 8,2% em novembro, a menor da série histórica iniciada em 2002. Já a renda subiu 3,3% na média do ano até novembro, atingindo R$ 1.143 no mês passado, ainda inferior aos R$ 1.167 do mesmo mês de 2002.
Crédito
Fundamental para o progresso econômico por alavancar a capacidade de investimento e consumo, o crédito subiu 24% neste ano até novembro, chegando a 34% do PIB. Ainda é pouco em relação a países ricos, onde pode passar de 100% do PIB, mas os setores expostos à explosão do crédito, como o de carros e imóveis, já colhem benefícios com crescimento chinês nas vendas. O volume de crédito imobiliário, por exemplo, subiu 79% em 12 meses fechados em novembro.
Investimentos
Cresceram 14% no terceiro trimestre, revelando confiança dos empresários. Esses investimentos, boa parte em máquinas e equipamentos, elevarão a produção de bens, desinflando no médio prazo pressões inflacionárias oriundas do atual elevado uso da capacidade instalada da indústria. Já o investimento estrangeiro direto no Brasil até novembro foi de US$ 33,7 bilhões, o dobro do ocorrido no mesmo período de 2006 e recorde histórico, superando 2000 (com US$ 32,7 bilhões, influenciado pelas privatizações do período).
Bovespa
2007 foi o ano da Bovespa, que deve acumular alta acima de 40%. É uma das Bolsas mais vigorosas do mundo, ímã para o capital externo. Ela dá às empresas brasileiras uma fonte generosa e barata de financiamento, ainda mais comparada aos altos juros do país. Considerando todos os lançamentos de ações neste ano (de estreantes e de quem já estava no mercado), foram captados quase R$ 70 bilhões na Bovespa em 2007, alta de 160% em relação a 2006. Novos setores entraram na farra bursátil, como o agropecuário e o imobiliário. Na Bolsa, essas empresas têm de buscar boa governança e transparência que devem melhorar seu desempenho.
Indústria
Apesar dos industriais dizerem há muito tempo que o setor sofre ameaça mortal com o real forte (que tira rentabilidade das exportações e barateia os concorrentes importados), a indústria brasileira teve um bom ano, com a produção industrial subindo acima de 5% e a produtividade do setor crescendo perto de 4%. O crescimento do mercado interno, puxado pelo aumento da renda e do crédito, compensa perda de rentabilidade com as exportações.
Varejo
As vendas no varejo, turbinadas pelo crédito e pela renda, subiram quase 10% de janeiro a outubro em relação a mesmo período de 2006. É um dos setores que mais deve lucrar com a expansão do mercado interno brasileiro, já que não sofre com o real valorizado. Pelo contrário, consegue trazer produtos importados mais baratos.
Agropecuária
Celeiro do mundo, o Brasil está entre os líderes mundiais na produção de carnes, grãos, aves e frutas. Os preços dos alimentos explodem com a demanda nova de centenas de milhões de chineses, indianos e outros cidadãos de países emergentes como o Brasil. Com mais dinheiro no bolso, começam a consumir mais justamente pela alimentação. As exportações do agronegócio, puxadas por carne e soja, devem crescer 18% no ano, chegando a US$ 58,5 bilhões, gerando saldo comercial no setor de US$ 50 bilhões.
Comércio externo
De janeiro a novembro, as exportações cresceram 16,6%, somando US$ 146 bilhões, enquanto as importações subiram 30,8%, atingindo US$ 110,02 bilhões. Os dois números são recordes históricos. Mas o saldo comercial recua por causa do crescimento muito maior das importações, turbinadas pelo real forte, que também segura nossas exportações. E se roubam mercado de nossa indústria, as importações mais baratas seguram os preços num momento em que a inflação ganha fôlego.
Tecnologia
Embora a pesquisa brasileira siga distante das empresas, limitando nossa capacidade de inovação, 2007 trouxe uma explosão na venda de computadores que geram explosão na conexão à internet, graças aos já citados avanços do crédito, do emprego, da renda e, fundamental neste caso, à redução de impostos sobre as máquinas. O número de pessoas conectadas à web em suas casas subiu 44% em 12 meses encerrados em outubro, enquanto a venda de computadores deve subir 23% no ano, com vendas acima de 10 milhões de micros.
Impostos
Por causa da expansão econômica e também da crescente formalização da economia, a arrecadação federal de tributos cresceu 11% até novembro, atingindo R$ 545 bilhões. Essa bonança arrecadatória, fruto da exorbitante carga fiscal, deve ser usada justamente para reduzi-la, absorvendo, por exemplo, a perda da CPMF sem grandes compensações.
Lucros
As maiores empresas brasileiras de capital aberto (com ações na Bolsa) nunca lucraram tanto como em 2007. Balanços de 220 companhias mostram que nos primeiros três trimestres deste ano elas faturaram R$ 368,6 bilhões e tiveram lucro líquido de R$ 39,2 bilhões, 45,6% maior que o registrado em mesmo período de 2006.
Todos esses números mostram que o ano que acaba foi excepcional para a economia brasileira, fruto de um cenário externo ainda muito favorável e da prolongada (em termos nacionais) estabilidade nas políticas macroeconômicas iniciada nos anos 1990.
2008 já parece mais incerto, com a crise financeira nos EUA e na Europa ameaçando conter o crescimento global que finalmente nos beneficia. Será o momento de nosso presidente --deslumbrado quando reflete sobre esses números, reivindicando para si méritos que lhe escapam-- mostrar responsabilidade fiscal e cautela para que atravessemos esse mar de incertezas sem perder os ganhos obtidos no ano que se encerra.
Feliz Ano Novo!
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
