Pensata

Sérgio Malbergier

04/01/2008

Procuram-se traidores

2008 começa mal. Durou menos de um mês o elogiado discurso do presidente Lula de não elevar tributos para compensar a perda dos cerca de R$ 38 bilhões da CPMF. Os aumentos no IOF e na CSLL foram anunciados logo no primeiro dia útil do novo ano e devem ser implementados rapidamente. Já os cortes prometidos nos gastos do governo, por enquanto, são só promessa.

A classe política brasileira é assim. Trata os cidadãos-eleitores como parvos, o que devemos ser, já que a elegemos.

As hordas que habitam Brasília somente de terça a quinta têm o intuito quase exclusivo de perpetuar seus privilégios e os dos pequenos grupos que representam, tudo pago com nossos inesgotáveis impostos. A falta de conexão entre os anseios da população e o que ocorre nos gabinetes políticos é desconcertante.

Mas o pacote pós-CPMF nem é o que mais incomoda neste início de ano, já que era esperado alguma elevação de tributos para compensar a perda em nome do defensável equilíbrio fiscal. E se os gastos públicos forem de fato contidos, pode até ser um exemplo regenerador.

Pior que isso é 2008 começar como se todos os escândalos e denúncias de 2007 (e 2006, 2005, 2004...) não tivessem trazido ganho político algum, mesmo com o indiciamento dos 40 do mensalão pelo corajoso procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza.

Dois exemplos:

1) Ao comentar a derrota da CPMF no Senado, o líder do governo na Casa de Renan, Romero Jucá (PMDB-RR), a atribuiu a um "passivo" governista com senadores: "No caso do PMDB, tem um ministério para definir (Minas e Energia); a questão do setor elétrico que ficaram pendentes. Tem também a questão das indicações dos Estados".

Então, pela lógica jucaciana, faltou ao governo entregar o gordo orçamento do Ministério das Minas e Energias e suas obras bilionárias ao PMDB de José Sarney (o favorito ao cargo é seu aliado maranhense Edison Lobão, que deve substituir o também sarneyzista Silas Rondeau, denunciado sob a suspeita de envolvimento em esquema de fraude em licitações comandado pelo "empresário" Zuleido Veras).

A política brasileira é assim. Se um representante de um grupo político é forçado a sair de seu posto por pressão popular, midiática ou judicial por suspeita de ter cometido falcatruas, esse mesmo grupo político que indicou o suspeito apresenta outra ilibada figura pública ao apetitoso cargo.

2) Outra pérola do período das festas de fim de ano veio do secretário de Finanças do PT, Paulo Ferreira, comentando as investigações da Receita sobre as contas dos partidos políticos após o escândalo do mensalão, em 2005:

"Não assumimos institucionalmente a movimentação informal que houve. Por que vamos reconhecer uma coisa ilegal?" Que tal porque os partidos políticos deveriam ser exemplo de comportamento ético?

Ferreira se referia aos milhões de reais levantados por Marcos Valério para financiar ilegalmente campanhas e sabe-se lá mais o quê do partido do presidente e aliados. A investigação da Receita Federal resultou na suspensão da imunidade tributária de PT, PSDB, DEM, PMDB, PP, PR e PTB (sim, nossos partidos não pagavam impostos e mesmo assim rodavam seus exuberantes caixa dois).

Caberá agora ao Ministério Público apontar crimes tributários e ao TSE, onde ainda não aprovou passivamente as frouxas contabilidades partidárias, determinar se é o caso de perda do fundo partidário (sim, os partidos recebem "por dentro" dos cofres públicos para fazerem suas campanhas).

O exasperante é que os políticos operam num software só seu e de seus companheiros. Os escândalos se acumulam, e quase nada acontece. Um ou outro político pode até eventualmente sofrer punição, quando as evidências são muuuuito fortes. Mas o sistema é inabalável, inexpugnável. Os métodos corruptos são refinados por décadas, séculos de tradição. Como ensina o mestre Sérgio Buarque de Holanda, já os colonizadores portugueses, nossa primeira casta política, só faziam explorar a colônia da forma mais predatória possível, em busca do ganho fácil, imediato.

Apesar dos políticos, a economia do país avança, mas demorará até que esse edificante dinamismo econômico regenere a política. Precisamos de ações internas, de infiltrados, que ajudem a desmoronar esse sistema podre por dentro, o mais rápido possível.

Cada país tem o Jefferson que merece. Se não tivemos Thomas Jeffersons a moldar um Brasil progressista e legalista, temos o Roberto Jefferson que, provavelmente por motivos inconfessáveis, traiu seus pares e expôs o mensalão na histórica entrevista a Renata Lo Prete na Folha.

Mas foi pouco e insuficiente, como mostram as duas declarações citadas. Precisamos de mais Jeffersons.

E sugiro que ajam meticulosamente, porque as provas são difíceis de acumular com contas numeradas no exterior e malas de dinheiro. Esses traidores da classe política serão macunaímicos heróis nacionais se começarem desde já a acumular provas, meticulosamente, de como se faz política no país e depois entregá-las a promotores dispostos a enfrentar essa podridão que nos afoga.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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