Sérgio Malbergier
Apresentando: Anderson "The Spider" Silva
O Brasil não conhece o Brasil. A impressão é que somos melhor do que o que vemos, até porque o que vemos...
O que não vemos é Anderson "The Spider" Silva, herói brasileiro. Você conhece?
Madrugada de domingo, SporTV: Anderson Silva, 32, lutador afrocuritibano, desafiante, contra Rich Franklin, branco, americano, campeão imbatível.
O locutor diz que as casas de apostas americanas dão Franklin como grande favorito. A luta é em Las Vegas, e a torcida é toda do americano.
Começa o combate, e Anderson, forte em jiu-jitsu e muay thai ('a luta das oito armas': dois cotovelos, dois joelhos, duas pernas e dois punhos), parte para cima de Franklin agarrando-lhe o pescoço e desferindo potentes joelhadas.
Uma, duas, três, quatro, as câmeras flagram o rosto de Franklin, desesperado. E o brasileiro segue joelhando o gringo no octágono. A torcida se cala. Pequeno respiro dos dois lutadores no centro, e Anderson vai para cima de novo com mais algumas joelhadas seguidas de dois chutes certeiros. O americano cai. E o juiz encerra a luta em apenas três minutos e 59 segundos do primeiro round.
Apesar de alta madrugada, fiquei entusiasmado com o desempenho sensacional de Anderson, derrubando o americano em sua casa com uma luta técnica, elegante, precisa. (Confira a luta no Youtube).
Fui à internet e descobri que o combate era de 2006, o que prova duas coisas: as TVs por assinatura brasileiras são viciadas em reprise, apesar de serem das mais caras do planeta, e o nosso desconhecimento sobre os feitos dessa legião brasileira de lutadores.
O Brasil tem tradição no combate e uma série de campeões, todos eles desconhecidos do chamado grande público apesar de suas glórias nas arenas internacionais num dos esportes que mais crescem nos EUA e na Ásia, atraindo cada vez mais público, dinheiro e celebridades.
Até o prestigiado dramaturgo e cineasta americano David Mamet está finalizando um filme sobre o esporte, com Rodrigo Santoro como empresário dos lutadores.
A premiada legião brasileira deve tudo à família Gracie e seu desenvolvimento do jiu-jitsu por aqui. Como me ensina Eduardo Ohata, mestre das lutas do caderno de Esportes da Folha, o vale-tudo foi introduzido nos EUA por meio do Ultimate Fighting Championship, organizado em 1993 por Rorion Gracie, filho de Hélio, patriarca do clã.
O torneio reuniu atletas de modalidades como boxe, caratê e até sumô e serviu de vitrine ao jiu-jitsu brasileiro. Royce, irmão mais novo de Rorion, se tornou campeão da primeira, segunda e quarta edição do UFC.
Mas as autoridades torceram o nariz para a falta de regras e a violência crua das lutas. O UFC foi relegado a cidades pequenas, que muitas vezes nem comissão atlética tinham, e acabou saindo dos EUA (em 1998 veio ao Brasil).
Aos poucos, para entrar em mercados como Las Vegas, desenvolveu regras mais "civilizadas", como uso de luvas e limite de tempo e assaltos. Até o nome vale-tudo deu lugar ao politicamente correto Mixed Martial Arts (artes marciais mistas).
Hoje, nota Ohata, o UFC é cuidadosamente pensado para agradar às gerações videoclipe/videogame emulando games ultraclássicos como o Street Fighter, com gráficos atraentes e lutas rápidas.
É o futuro, e nosso Anderson Silva é considerado por muitos o melhor do esporte, como mostra seu site pessoal, spidersilva.com, em inglês.
O Brasil precisa conhecê-lo.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
