Pensata

Sérgio Malbergier

26/03/2008

Saudades do BBB

"Não sei o que tem na minha cabeça... não tem nada na minha cabeça", disse a Big Brother a Pedro Bial. "Mas você tem coisa na cabeça", insistiu o apresentador.

Papo cabeça à parte, o Big Brother Brasil ainda consegue ser a melhor novidade da TV aberta, mesmo envelhecido na oitava edição global e mais de sete anos depois da primeira Casa das Artistas, aquela original cópia pirata de Silvio Santos com os inesquecíveis Supla, Barbara Paz e... e... esqueci.

Muito silicone, muita carne, muita besteira, muito "fake it till you make it" (finja ser até ser): como uma peça do Miguel Falabella ou qualquer "boa" novela. Só que ao vivo, no improviso.

Assim como os americanos falam como os atores de Hollywood, nós brasileiros falamos como se estivéssemos na novela das nove. O BBB fecha o círculo: os atores e suas falas clichês são trocados por gente comum que mimetiza os noveleiros e empacota a vida como um folhetim de Gilberto Braga ou Silvio de Abreu, uma sucessão de choros incontroláveis, dramas rasteiros, intrigas comezinhas, revelações de homossexualidade, liberalidades sexuais, vulnerabilidades contemporâneas.

Só que no BBB avançamos nessa teledramaturgia rastaqüera, ultrapassada, fossilizada, para cairmos no novo mundo em gestação, onde são pessoas comuns que produzem os conteúdos, o que fez a revista 'Time' dar a Você (You) o cobiçado título de homem do ano em 2006, o da explosão do YouTube, da Wikipedia, do Myspace. Não queremos mais só consumir conteúdos e narrativas, queremos produzi-los, expor nossas vidas e espiar a dos outros sem "intermidiários": o que, segundo a "Time", vai mudar não só o mundo mas a forma como o mundo muda.

A decisão da oitava edição brasileira foi inescapavelmente apoteótica. A decisão do vencedor ficou como sempre para os instantes finais, o que certamente estimulou a participação dos espectadores. Segundo o ex-jornalista Bial, ela passou de 75 milhões de votantes, um colégio eleitoral de mais de meio Brasil votando espontaneamente em Rafinha e Gyselle (será que teriam o mesmo ânimo com Marta e Alckmin?) e enchendo o caixa da operadora telefônica entre um acorde dissonante e outro mais dissonante ainda da clone de roqueira Pitty.

Um dos grandes momentos da noite foi a salva de palmas puxada por Bial ao seu chefe Boninho, ou 'zeus', o diretor do programa. Mas meu momento preferido mesmo-mesmo foi a mãe de todos os merchandisings: os dois finalistas simulam tomar o café-da-manhã daquele que seria o dia mais importante de suas vidas numa mesa cheia de produtos Nestlé envolta por painéis enormes dos produtos da múlti suíça recheados por diálogos incrivelmente fajutos celebrando a empresa: o que é uma distorção bizarra do conceito de reality show e deixa evidente que as novelas seriam ainda piores se fossem escritas pelos publicitários.

A publicidade foi outro destaque, atraída pela enorme audiência. Nessa época de relativa prosperidade e otimismo econômico, a lista de anunciantes era uma sucessão de empresas recordistas em vendas no país: montadoras, bancos, fabricantes de alimentos, bebidas, varejo, cosméticos. Meu big Oscar foi para o dos shampoos Niely Gold, uma peça cínica e bem-humorada com a estrela noveleira Carolina Ferraz num volumoso cabelo chegando para jantar romântico com nada menos que Richard Gere. "Seu cabelo eshtá lindo", diz ele num português engraçado e charmoso.

Ungido vencedor do BBB8, Rafinha sai pulando da casa aos gritos de 'milão! milão!' (não a cidade, a cifra) e encontra o sagaz Bial: "Primeiras palavras como milionário?". Rafinha: "Valeu galera! Todo mundo! Eu tô ríííícôôô!" Quem gosta de miséria é intelectual.

Acaba o programa, e a Globo gruda no campeão de audiência mais um episódio modorrento da minissérie "Queridos Amigos": entram homossexual tentando convencer outro a sair do armário, cena de sexo, papo cabeça, a novela de sempre. Um suposto retrato dos anos 1980, nos quais eu infelizmente sou velho o bastante para ter vivido com alguma intensidade e saber como aquilo tudo é raso, falso, como todas as telenovelas, colagem de clichês antigos e/ou reciclados de Hollywood ou qualquer outra arte mais original. A direção, a luz, os enquadramentos, as acentuações musicais no mesmo tom dos novelões, no mesmo tom do Big Brother, mas sem seu frescor, sua autenticidade fake, seu vigor popular. Saudades do BBB.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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