Pensata

Sérgio Malbergier

03/04/2008

Segundo Mundo

A Nova Ordem Mundial foi lançada por George Bush pai quando os EUA lideraram uma coalizão de mais de 30 países contra o Iraque de Saddam Hussein por causa de sua invasão bárbara do Kuait, em 1990-91. Primeiro grande evento global pós-Guerra Fria, o conflito mostrou ao mundo que os EUA eram a única superpotência restante e seu modelo liberal, o mais almejado.

Não por coincidência o segundo conflito dos Bush com Saddam marca, 15 anos depois, o nascimento da nova nova ordem mundial, com o aparente declínio do Império Americano redesenhando o Grande Jogo das nações.

Nesse novo mapa geopolítico os EUA competem pela liderança com a União Européia e a China, e os três disputam os recursos naturais e os mercados do mundo emergente, o chamado Segundo Mundo, na instigante visão do indiano Parag Khanna no recém-lançado "The Second World" (Random House).

"O balanço de poder em eras passadas se deu entre potências européias compartilhando uma cultura comum. Mesmo a Guerra Fria permaneceu essencialmente uma disputa pela Europa. O que temos hoje, pela primeira vez na história, é uma batalha global, multicivilizacional e multipolar", escreveu Khanna na excelente revista do "New York Times", adiantando seu livro.

Khanna, pesquisador da New American Foundation, é pessimista sobre as chances de os EUA ganharem esse jogo, talvez pessimista demais, para quem lembra das previsões dos anos 1980 de que a economia japonesa ultrapassaria a americana num futuro não muito distante. Mas seus insights são provocantes. Ele vê os três grandes competindo cada um à sua maneira pelo Segundo Mundo. A arma de combate escolhida é a globalização.

Já o Segundo Mundo tenta tirar o máximo de proveito da disputa entre os três grandes: "Em grande medida, o futuro do Segundo Mundo depende de como ele se relaciona com as três superpotências, e o futuro das superpotências depende de como lidam com o Segundo Mundo", escreve Khanna.

Nascido na Índia e criado nos EUA, Emirados Árabes Unidos e Alemanha, ele viajou dois anos por mais de 40 países, o Brasil, potência do Segundo Mundo, parada obrigatória, para escrever seu livro, oportunamente lançado em plena crise financeira americana, quando empresas como a indiana Tata compra jóias do Primeiro Mundo como a Jaguar, fundos chineses e árabes compram pedaços gordos de bancos como o Citibank e a brasileira Gerdau compra uma siderúrgica por semestre nos EUA.

O Brasil, com nosso abençoado estoque de commodities no momento em que o mundo as devora, é destaque do Segundo Mundo latino-americano, superando a trupe chavista como rival dos EUA na região:

"O desafio de Chávez aos EUA é de inspiração ideológica, enquanto a mudança no Segundo Mundo é na verdade estrutural. Mesmo com Chávez ainda no poder, é o Brasil que está reaparecendo como líder natural da América do Sul. Junto com Índia e África do Sul, o Brasil lidera as negociações comerciais, atacando as tarifas de aço dos EUA e os subsídios agrícolas da Europa. Geograficamente, o Brasil fica quase tão perto da Europa quanto dos EUA, e deseja tanto fabricar carros e aviões para a Europa quanto exportar soja aos EUA. Além disso, o Brasil, embora leal aliado americano na Guerra Fria, não perdeu tempo em declarar uma 'aliança estratégica' com a China. Suas economias são notavelmente complementares... As ambições de Brasil e China podem em breve alterar até a geografia de suas relações, com o Brasil liderando o esforço para construir uma rodovia transoceânica da Amazônia ao Pacífico passando pelo Peru."

Muitos de nós brasileiros, saudavelmente céticos depois de cinco séculos de decepções e sob uma classe dirigente despreparada e corrupta, ainda não percebemos a grandeza dessa emergência nacional, que já traz dividendos claros na economia e na política externa.

O competente chanceler Celso Amorim parece ter razão em desabafo recente ao jornal "O Globo": "Há uma percepção de que o Brasil é um país que tem capacidade de ajudar [na diplomacia global]. Onde há menos percepção é no Brasil. De fora, todos vêem o Brasil como o grande país que é, um país pacífico e com potencial de ajudar muito. Embora haja um interesse crescente pela política externa, que está se tornando mais popular, vejo no Brasil um sentido de autoflagelação. Não sei se isso corresponde a interesses de setores ou se simplesmente as pessoas não estão acostumadas e têm medo de desempenhar um papel mais importante nas relações internacionais".

Com medo ou sem medo, o Brasil cresce no Segundo Mundo. O Primeiro Mundo está ainda muito longe, afastado por epidemias de dengue, guerra urbana, classe política despreparada e corrupta, sistema legal ineficiente, carga fiscal sufocante... O olhar externo vê um potencial que nós, envoltos nessa névoa espessa de problemas, temos dificuldade de enxergar e realizar. Trabalhemos para que esteja certo.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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