Sérgio Malbergier
Ontem em Brasília
Então criaram uma CPI, não, duas. As duas com maioria do governo, destinadas ao forno da pizza. Inúteis, como metade do que o Congresso faz. A outra metade é útil, muito útil, para as bases dos políticos, ou seja, eles mesmos e os pequenos grupos que representam.
E se isso não bastasse, trava-se ainda uma batalha sobre o alvo da investigação das CPIs e da Polícia Federal: apenas a origem do vazamento do dossiê anti-FHC ou também sua autoria?
É isso o que ocupa os políticos, o ministro da Justiça, a Polícia Federal, a Casa Civil. E o país vai passando pela janela, cheio de problemas urgentes. Esperar que essa classe dirigente os conserte ou ao menos tente é perda de tempo pois ela é parte e causa deles.
Pois saiu do escritório da "mãe do PAC", Dilma Roussef, o dossiê insosso listando a enfadonha lista de compras de dona Ruth. Mesmo o PAC sendo fundamental, nas palavras do presidente Lula, "para destravar o país", e estar atrasado, alguém altamente graduado da Casa Civil perdeu horas de trabalho valiosas, pagas com nosso dinheiro, para elaborar o tal dossiê. Um escândalo. E mais dinheiro público será desperdiçado pelos parlamentres e policiais federais neste verdadeiro machartismo de miudezas que é a disputa política nacional.
O ministro da Justiça e fabricante de pérolas, Tarso Genro, disse outro dia que os políticos internalizam os defeitos da sociedade. Era uma tentativa de justificar o apodrecimento moral de sua classe emporcalhando o resto do país, colocando a culpa nas vítimas e inocentando os culpados.
CPIs boas mesmo foram as do mensalão, de memoráveis e inesquecíveis cenas: a confissão de Duda Mendonça, o depoimento de José Dirceu madrugada adentro, humilhado por pequenos deputados, os duelos de Roberto Jefferson, um casting interessante de parlamentares e depoentes coadjuvantes. Expôs o Congresso, a política, o poder. Pode até não acabar em pizza.
Um ex-integrante do Banco Central lembra vivamente dos depoimentos que fazia nas comissões do Congresso. O parlamentar fazia a pergunta, às vezes longuíssima e complexa, posando para as câmeras. E saía da sala no meio da resposta. Interessava-lhe apenas a exposição, não o debate.
Vamos agora a mais duas CPIs, do tipo inócuas. Enquanto isso as reformas, urgentes e consensuais desde antes de a família real aportar no Rio, mofam no carpete colorido do Parlamento em Brasília.
Capitais diferentes, o mesmo atraso.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
