Pensata

Sérgio Malbergier

01/05/2008

Colação de grau

Melhor do que receber o grau de investimento, foi recebê-lo em meio a uma crise financeira internacional que em outros tempos teria devastado a economia brasileira.

Melhor ainda foi obtê-lo com nosso primeiro presidente, vá lá, de esquerda, o que em nossos vizinhos sul-americanos trouxe devastação.

Lula é muito melhor do que eles, pois se é tolerante com a nefasta prática política brasileira que o forjou presidente, enxergou o óbvio na economia: o imperativo de jogar dentro das regras do mercado, não desafiá-lo primariamente como seus contemporâneos esquerdistas, os Chávez, Kirchners e Morales.

Lula e o Brasil temos todos os motivos para festejarmos a colação de grau da economia brasileira, mas é preciso não deixar a festa e os recordes da Bovespa ofuscarem os enormes defeitos e desafios do país.

A chancela de bom pagador que recebemos significa basicamente que, na visão de uma (desmoralizada) agência de avaliação de risco americana, o país tem condições de pagar sua dívida.

Com ela, enormes fundos de investimento estrangeiros, antes impedidos de investir em papéis brasileiros, poderão fazê-lo, elevando nossa capacidade de atrair capital. E é com capital que o capitalismo avança.

Mas países como o Peru já têm esse selo. E, com todo respeito a eles, é prova de que recebê-lo não resolve a vida de ninguém.

Falta ao Brasil fazer a parte mais difícil, como sanear a política, passar as reformas urgentes há décadas, ter um Judiciário eficaz, educação de qualidade, combater a corrupção e a violência urbana... a lista é enorme. A economia saiu na frente, como sempre, mas o resto do país e suas instituições precisam segui-la.

Estamos como um aluno promissor que colou grau numa boa faculdade, cheio de planos e esperanças na estrada do futuro.

Tudo pode dar errado. É preciso pé no chão e mão na massa para tornar o potencial brasileiro no Brasil potência. O diploma já temos, falta todo o resto.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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