Sérgio Malbergier
Obama Serra e Hillary Alckmin
A coincidência entre as corridas para presidente nos EUA e municipais no Brasil ressalta as diferenças políticas dos dois gigantes americanos.
Hillary Clinton e Barack Obama travam uma muito democrática e vibrante corrida pela nomeação de seu partido na disputa pela Casa Branca. Há meses debatem intensamente suas idéias e tentam conquistar os democratas dos 50 Estados. Com os Clinton dominando o establishment do Partido Democrata desde os anos 1990, Hillary era favoritérrima antes do novo, carismático e esperto Obama tomar conta do show eleitoral.
Corta para a sonolenta, obscura, palaciana, corrupta política brasileira (alguém consegue achar um adjetivo positivo para a nossa prática política?). O PSDB tem o candidato favorito nas pesquisas em São Paulo, que hoje bateria Marta e Kassab com facilidade no segundo turno.
Ajudado por seus defeitos (a caretice, o tedioso comedimento) e pelo recall de governo e campanha presidencial, Alckmin seria a barbada do PSDB para conquistar a cidade mais importante do país, do peso de alguns Estados pequenos juntos e seus suculentos cargos e orçamentos.
Mas o governador do Estado, sócio-fundador do partido, por cálculos que só podem ser pessoais, prefere apoiar o candidato dos Democratas, um partido que, modernizado, competirá na capital paulista pelos mesmos eleitores que hoje suportam o PSDB. A fidelidade partidária está longe de ser realidade.
Hillary promete resistir até o fim, apesar da pressão dos números, do partido e da mídia, que certamente prefere o eletrizante Obama. Mas Hillary resiste, por enquanto ao menos, dentro das regras, à luz dos muitos holofotes.
Já no Brasil os acertos para escolher os candidatos são feitos à meia-luz nos restaurantes do poder, por partidos nada democráticos em sua forma de operar, regidos pelas conveniências de seus caciques e do indiscriminado fisiologismo. O PT, é verdade, tem um pouco mais de abertura com suas prévias para filiados, mas ainda muito limitadas, e alguns líderes do PSDB as defendem, mas sem muito apoio.
O sistema americano tem defeitos, é muito complexo, e os caciques (os superdelegados) ainda podem ser decisivos, como na atual peleja Hillary-Obama.
Mas certamente é muito melhor que o brasileiro. Nossa política é lenta nas mudanças e sempre nos atrasa. É nossa maior trava.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
