Sérgio Malbergier
Nunca antes na história daquele país
Foi um truque baixo, mas a política não é uma coleção deles?
Quando Hillary Clinton apareceu nos vídeos globais na noite de terça-feira, após as duas últimas primárias da campanha, todos aguardavam que ela desistisse. Barack Obama tinha acabado de garantir a maioria dos votos na convenção democrata, e Hillary não estragaria momento tão avassalador da história.
Com a atenção da América e de boa parte do mundo garantida, ela resolveu listar suas posições e exaltar os EUA antes de dizer o que todos (não) esperavam: "Não tomarei nenhuma decisão nesta noite".
Hillary conseguiu mais algumas horas de atenção nacional e mais tempo para negociar sua rendição e seus próximos passos. Eles podem enterrar ou turbinar sua carreira, mas a senadora de Nova York já pode dizer que é a mulher que chegou mais perto do posto mais poderoso do mundo, a Presidência dos EUA --embora a mulher de Obama produza faíscas ainda mais radicais ao obrigar o país a imaginar uma primeira-dama negra na Casa Branca.
Mais radical e importante ainda, Obama já pode dizer que é o negro mais perto do posto mais poderoso do mundo. A juventude afro-americana que idolatra rappers e atletas terá agora um político poderoso, um líder nacional, para inspirá-la também. Uma grande novidade.
Algumas pessoas apressadamente descartam a chegada de Obama à Casa Branca só por ele ser negro. É um pensamento que olha para trás, não para frente. O mundo muda rapidamente, os EUA juntos. Recentemente um distrito ultrabranco do Alabama elegeu um representante negro.
Obama usa armas novas, principalmente a super-poderosa internet, para mobilizar eleitores e arrecadar fundos. Ele aponta o futuro, já que só em filmes futuristas o presidente dos EUA é negro.
Esse futuro está mais perto. Simbolicamente já é um feito e tanto de Obama estar onde está, tendo derrotado os Clintons e os preconceituosos. Se ganhar a eleição em novembro, seus aparentes defeitos (a inexperiência, o voluntarismo, a inconsistência) podem apagar a mágica criada por sua conquista inédita da nomeação democrata. Por enquanto, porém, ela não pára de crescer.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |
