Pensata

Sérgio Malbergier

20/06/2008

Bush, Scolari e dubstep em Londres

Não ia a Londres desde 1995. Voltei com George W. Bush. Eu, de férias, o presidente dos EUA, em seu tour de despedida pela Europa, já incapaz de atrair as multidões que em visitas anteriores o xingavam a plenos pulmões.

No domingo fresco e ensolarado da primavera londrina, 15 de junho, não chegaram a 2.000 os protestantes, comprimidos na praça entre o Parlamento e os gabinetes do governo britânico, em Westminster.

Bush não viu nem ouviu o mix previsível de esquerdistas e arabistas gritando "Bush terrorista" e "criminoso de guerra" no jantar a ele oferecido em 10 Downing Street pelo premiê trabalhista, Gordon Brown, na companhia de alguns eméritos historiadores como Simon Schama e Martin Gilbert. O novo mantra de Bush é que o julgamento da história o salvará, uma saída óbvia, a la Getúlio Vargas ("saio da vida para entrar na história"), tirando o suicídio.

Mas Bush não era o único show na cidade, muito pelo contrário. A incessante mídia britânica, multiplataforma, multipolar, escandalosa, ácida, crítica, ultracompetitiva, devora muitos assuntos por minuto.

Assim, a contratação de Luiz Felipe Scolari pelo Chelsea teve tanta atenção quanto a visita presidencial, ou mais. Scolari (os ingleses não conseguem falar Felipão, sai felipáo) chega com a merecida fama de casca grossa e adepto do futebol feio.

Seu embate com a estridente crônica esportiva local será sujo e memorável. E já começou. Numa entrevista coletiva na Eurocopa, em andamento no eixo Suíça-Áustria, um repórter inglês perguntou se ele, como técnico da seleção de Portugal, não via problema em negociar e anunciar sua saída do time bem no meio de uma competição tão importante. Não!, respondeu o gaúcho enfezado e seco. Poucos dias depois, a Alemanha eliminaria Portugal da copa.

Como no resto do mundo, a volta da inflação também assusta os britânicos e ganha as manchetes. Rodando a 3,3%, quando a meta é 2%, ela foi chamada de "maior desafio econômico do país em duas décadas" pelo presidente do BC britânico, Mervyn King. Anos de ganhos de produtividade, melhor governança monetária e ondas de produtos asiáticos baratos acostumaram o planeta a baixas taxas de inflação e alto consumo.

É possível hoje comprar roupas em Oxford Street mais baratas do que no Bom Retiro porque elas vêm direto das fábricas chinesas, indianas, vietnamitas, cambojanas, indonésias... Mas os preços dos combustíveis e dos alimentos sobem no mundo commoditizado, puxando a inflação em todos os continentes. Até o custo da mão-de-obra asiática está subindo. E os britânicos, mergulhados junto com o planeta na era do "consumo, logo existo", temem ter de consumir (existir) menos diante da escalada inflacionária global.

Voltei a Londres 14 anos depois de ter sido correspondente na cidade pelo jornal. Centro mundial há séculos, é fácil perceber como prosperou ainda mais na era Blair (1997-2007), impulsionada pela força financeira da City, pela consolidação liberal iniciada no governo Thatcher (1979-1990), pelas poderosas forças globalizantes que tornam megatrópoles como Londres hubs naturais de trânsito e produção de riquezas.

O boom imobiliário que agora recua levemente na cidade explodiu o preço do metro quadrado e tornou milionários muitos proprietários londrinos. Forçou também a exploração e a renovação de áreas historicamente mais pobres, como East London, a zona leste local.

Mas são mudanças que apenas reforçam o caráter de cidade aberta, multicultural, rica, inovadora, liberal, central, essencial para entender o mundo, o passado e o futuro:

Às margens do Tâmisa, no Queen Elizabeth Hall, moleques de pouco mais de 20 anos tocam numa noite dedicada ao dubstep, dark pós-eletrônico com baixo fortíssimo, nascido no sul de Londres no início dos anos 00. No palco, música e formações inusitadas, como um trio trombone, bateria e parafernália eletrônica, cujas freqüências são tão graves que abalam o teto do teatro, forçando a mudança do show para o adjacente Royal Festival Hall.

Pelas paredes de vidro, o pôr-do-sol colore o Tâmisa. Dentro do hall, dançamos meio parados sem saber o que ouviremos no próximo compasso. A música do futuro, agora, em Londres.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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