Pensata

Sérgio Malbergier

31/07/2008

Nem a coroa nem os espinhos

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Os ministros mais eficientes de Lula, não que a concorrência seja grande, não por coincidência são profissionais em suas áreas, como o chanceler Celso Amorim, não por coincidência no cargo desde a primeira posse de Lula, em 2003.

Sob Lula e Amorim, o Brasil tornou-se uma das sete vozes mais importantes nas discussões de comércio global no âmbito da Rodada Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio), iniciada em 2001 na cidade que a batiza.

O grande pulo do gato brasileiro ocorreu nas negociações em Cancún (2003), quando o Brasil liderou a criação do G20, bloco de países em desenvolvimento formado por Índia, China, Egito, Indonésia, Argentina, México, África do Sul e outros, unidos para ganhar força no embate com as forças dominantes do comércio global: EUA, Japão e europeus.

O Brasil é hoje uma das sete vozes no primeiro círculo de negociações entre os 153 países membros da OMC (uma espécie de Conselho de Segurança da organização, sem poderes executivos), junto com EUA, União Européia, China, Japão, Índia e Austrália.

O país detém só cerca de 1% do comércio mundial. Mas a emergente força da economia brasileira (potência agropecuária e mineral, indústria diversificada, mercado interno grande e em expansão), a boa diplomacia do Itamaraty, a crescente liderança regional, o respeito aos mercados, a defesa da democracia e do multilateralismo e a busca de alianças e mercados múltiplos trouxeram uma projeção à voz brasileira no âmbito comercial jamais alcançada na esfera política.

Por tudo isso, o fracasso das negociações em Genebra nesta semana não é o fracasso do Brasil, mas o fracasso das negociações globais, do multilateralismo, da liberalização comercial. Grosso modo, significa que os cidadãos do mundo terão de seguir pagando mais para consumir de bananas a videogames.

Amorim, no G7 da OMC, decidiu, para viabilizar um acordo, aceitar na primeira hora o pacote proposto pelo diretor-geral da organização, o francês Pascal Lamy. Se tivesse convencido reticentes emergentes, seria a coroação da liderança brasileira. Fracassou, por intransigências de terceiros (EUA, China e Índia). Não leva a coroa, mas tampouco os espinhos. O Brasil teve um salto de projeção em Doha que permanecerá para além da rodada quando ela finalmente acabar.

Apesar de nossas repugnantes deficiências, o Brasil está na moda no exterior. E já faz algum tempo. Ao nosso hardpower econômico adicionamos nosso pitoresco e folclórico softpower, mix de música, futebol, mestiçagem e tropicalismo sensual.

Se tem um lado positivo, o fracasso de Genebra é mais uma prova de como os gigantes emergentes ganham poder no século 21. O Brasil está entre eles. Uma conquista a ser mantida e ampliada à esfera política, onde o chumbo é mais grosso. Às armas!

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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