Pensata

Sérgio Malbergier

21/08/2008

Marta lá, Serra onde?

O governador de São Paulo, José Serra, finalmente apareceu, hesitante, no programa eleitoral tucano apoiando o colega de partido Geraldo Alckmin. A hesitação de Serra custa caro ao PSDB e a ele mesmo. PT e Marta agradecem.

Sua opção pela ambigüidade foi feita quando os primeiros retratos das pesquisas revelavam força dos candidatos do campo Dem-tucano à Prefeitura de São Paulo. Em fevereiro, tinham, juntos, 41% das preferências (29% de Alckmin e 12% de Kassab), contra 25% de Marta, na pesquisa Datafolha. Já neste mês, é Marta que tem 41%, enquanto os dois acumulam 34% (26% de Alckmin e 8% de Kassab), segundo o Ibope.

Se o retrato antigo parecia permitir a ambigüidade serrista, o atual expõe um enorme erro estratégico. Que pode ficar ainda pior agora que a campanha eleitoral atinge as massas via TV. O eleitor fica confuso e desconfiado: Por que o governador está com um pé em cada canoa? Por que Serra não apóia seu colega de PSDB?

No primeiro programa eleitoral, a confusão foi notória. Serra apareceu apoiando Alckmin "on camera", mas sozinho. Já no programa de Kassab, ele surgiu junto ao candidato, mas em imagens da época em que o governador era o prefeito e o candidato, seu vice.

A reação das duas campanhas às primeiras aparições de Serra foi constrangedora. Tanto Kassab quanto Alckmin chamaram o apoio do governador ao rival de "natural", quando a situação é bem estranha.

E se o apoio de Serra é elusivo e fragmentado, o do presidente Lula, o político mais popular do país, a Marta é resoluto e por inteiro. Uma vitória da ex-prefeita retornará ao comando petista a cidade mais importante do país, com orçamento de proporções estaduais e trampolim político, aí sim, natural para vôos nacionais.

Sim, Serra, ao inventar Kassab, além de penalizar Alckmin e rachar o PSDB, pode pavimentar o caminho para a também ambiciosa petista buscar o Planalto em 2010. Se ganhar aqui, superando a ainda forte rejeição em boa parte do eleitorado, e Dilma não decolar, Marta pode atropelar na corrida presidencial surfando na onda lulista.

A aposta de Serra, ao menos no retrato atual, parece ser a pior possível. Kassab está orbitando ao lado de Paulo Maluf na terceira posição, distante dos líderes. Só a TV e algo mais podem salvá-lo. Já Alckmin, se ganhar, por enquanto nada deve a Serra, pelo contrário.

O governador vê esse começo de campanha do Japão e depois deve ir ao Reino Unido. Quando voltar, terá dificuldades para explicar sua posição.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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