Pensata

Sérgio Malbergier

24/11/2008

A verdade na adversidade

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É na adversidade que se conhece a verdadeira essência das pessoas, dos governos. Essa crise será reveladora. Com sorte, didática.

Tivemos sob Lula os melhores anos do Brasil. Se o petista mais ajudou ou atrapalhou pode ser debatido (voto convicto no ajudou), mas de 2006 a 2008 crescemos robustamente, com 18 trimestres seguidos de alta nos investimentos e no consumo das famílias. Crédito, investimento, emprego e lucro aceleraram juntos com a confiança, pobreza e desigualdade diminuíram.

Nessa relativa exuberância vislumbramos um país melhor, mais perto de seu potencial. Mas a preguiça e a tolerância exagerada com ilegalidades e erros barraram as reformas indispensáveis para mudarmos nosso patamar de desenvolvimento.

Assim a crise nos pega ainda com uma infra-estrutura precária e custosa, leis trabalhistas pesadas, Judiciário ineficiente, sistema político corrupto, carga tributária caótica. Tudo isso gera uma carga enorme para o país e suas empresas que Lula, com todo o seu poder e instinto, não soube aliviar.

Depois de tentar convencer o Brasil na garganta que a crise aqui não chegaria, como se estivéssemos em Marte, o governo agora sai na pressa e atrasado contra o prejuízo, dispensando benesses fiscais e creditícias aos grupos de pressão mais organizados.

E já escolheu bodes expiatórios: os bancos e os tais especuladores do mercado financeiro.

A relação do lulismo com os bancos é a mais esquisita. Ministros primeiro reclamaram dos lucros exagerados dos bancos brasileiros, depois disseram que sua solidez (advinda desses lucros) era uma muralha contra a crise, agora os acusam de segurar o crédito contra os interesses nacionais.

Se os banqueiros transferissem ao governo a análise da concessão do crédito, base do sistema bancário, aí sim estaríamos fritos, como mostram o histórico dos bancos estatais e a própria dimensão da dívida pública.

Já os agora gananciosos "especuladores estrangeiros" antes da fuga eram "investidores estrangeiros" que atestavam e financiavam o sucesso do país, inflando o valor de nossa moeda e de nossos ativos.

A incoerência é reveladora. O furacão econômico que veio do Norte pegou o lulismo desprevenido em plena ascensão. Será preciso frear o foguete para atravessarmos esse deserto.

As miragens são tentadoras mas enganadoras. O fato de as principais economias, mesmo as mais liberais como EUA e Reino Unido, defenderem intervenção estatal confunde cabeças e ressuscita o perigoso equívoco de que o Estado pode tudo contra a estagnação econômica.

Não pode, já conhecemos esse filme de catástrofes passadas, não vamos reaprender de novo a lição. A eficiência do Estado brasileiro é comparável à defesa do Ipatinga. Não é um bom gastador, pelo contrário. Sua maior especialidade é encher os bolsos de pequenos grupos.

Só a capacidade instintiva de Lula, herói nacional com todos os defeitos inerentes ao personagem, pode nos salvar das suas piores idéias e de seus piores assessores.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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