Sérgio Malbergier
Na calada da noite
De keynesianos a heterodoxos, todos concordam que a economia brasileira está hoje mais preparada para enfrentar a crise econômica global do que em crises anteriores, prova de que avançamos economicamente.
Já a política brasileira continua a mesma ou mesmo piorou nos últimos anos, como prova o arrastão legislativo nesta última semana de trabalho do Congresso.
O que se passou no Senado de quarta para quinta-feira foi chocante. Como acontece ano após ano, o que só torna o fato mais chocante ainda, dezenas de propostas foram à votação em poucas horas, tratando do dia do auditor do trabalho ao fundo soberano nacional ao número de vereadores do país ao uso de código de barras ao endividamento de Goiânia. Deviam ter aproveitado para destituir o Dunga da seleção.
A sessão varou a madrugada. Acabou às 6 da manhã, com nove projetos de lei, cinco propostas de emenda à Constituição, três medidas provisórias, seis decretos legislativos e nove resoluções aprovadas na calada da noite.
Depois de meses e meses de escassa produção, os senadores apertaram o "fast forward" na última sessão de 2008, aprovando o que não sabiam muito bem e o que sabiam muito bem.
Como, por exemplo, o projeto de lei do senador Eliseu Resende (DEM-MG), que estendeu por até 15 anos, sem licitação, repito, sem licitação, valiosas linhas de ônibus interestaduais, embora a Constituição já exija que se licite essa exploração privada de concessão pública.
O avanço econômico, pelo contraste, expôs ainda mais esse atraso da classe política brasileira, corrupta, fisiológica, corporativista, cínica, a serviço de grupos financiadores.
O sistema é auto-sustentável, levas e levas de escândalos nem abalam sua estrutura, praticamente imune ao Judiciário. Acusados de crimes hediondos inclusive tornam-se líderes parlamentares com a maior naturalidade. A política, para a maioria dos políticos, tornou-se uma forma de ascensão econômica. Só isso.
Mas a percepção popular da corrupção cresce, porque é cada vez maior e por causa das operações da Polícia Federal no horário nobre. Como ela é parte fundamental do sistema e assim não há grande partido que prometa combatê-la (nenhum presidenciável, por exemplo, o faz), abre-se a brecha para um oportunista ungir-se faxineiro de Brasília. Se a crise piorar, pode até vingar.
A política brasileira é assim, sempre uma escolha entre opções ruins.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |

