Pensata

Sérgio Malbergier

06/04/2009

Gente branca de olho azul, um chinês sisudo e um moreno simpático

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A cúpula do Grupo dos 20 países mais desenvolvidos do mundo em Londres foi histórica. Não só pelas promessas vagas de reformas financeiras e cifras infladas de estímulos econômicos, mas principalmente pela gestação de uma estrutura de poder mais desconcentrada, com potências emergentes como China e Brasil tendo mais voz na cena global.

O G20 foi originalmente criado em 1999 sob o abalo das crises econômicas daquela década que dizimavam economias periféricas, como a crise asiática, a crise do México e a crise da Rússia. Era um fórum apenas de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais com jurisdição limitada e puramente econômica.

Ressuscitado com pompa no final de 2008, quando era presidido pelo Brasil, tornou-se o principal fórum de debate multilateral desta crise, agora reunindo também chefes de governo e ganhando uma projeção política inevitável.

Outra mudança seminal foi no foco da crise econômica, agora não mais no mundo emergente, mas nas nações mais desenvolvidas, principalmente nos EUA e nas potências europeias. Que de tão fracos foram obrigados a dividir o fardo da recuperação econômica com as novas forças globais.

O resultado é um deslocamento de poder do moribundo G8 (EUA, Alemanha, Japão, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Rússia) para o revigorado G20, um movimento econômico que antecipa a reforma política do Conselho de Segurança da ONU e que deve fazer do século 21 o cemitério da hegemonia dos homens brancos de olhos azuis após séculos de dominação.

Neste rearranjo étnico-econômico global, o Brasil está bem posicionado para ganhar poder e projeção, mérito histórico do país e também do nosso presidente atual.

O Brasil, desde a redemocratização, o Plano Real e a eleição de Lula, une estabilidade política com econômica, o que nos projeta como fonte de liderança moderada e responsável numa região que ainda pouco aparece no radar global: a América do Sul.

As maluquices irresponsáveis de Chávez e companhia só reforçam nossa importância regional. O surto de desenvolvimento que vivemos até o colapso financeiro americano também mostrou à comunidade internacional nosso potencial produtivo, nosso vultoso mercado interno e nossa importância estratégica.

E se Lula errou no início ao dimensionar mal o lado brasileiro desta inescapável crise, acerta em usá-la como trampolim para jogar o Brasil no centro das decisões mundiais.

Testou seu carisma global ao disparar uma tirada racista diante do constrangido premiê britânico, Gordon Brown, em Brasília, de que a crise foi causada por "gente branca de olho azul". Mas a frase é boa e correu o mundo às vésperas do G20, globalizando o lulismo.

Sua passagem por Londres foi simpática, alegre, apesar dos tempos sombrios. Sentou-se ao lado da rainha Elizabeth e na frente de Barack Obama na foto de gala do evento. E ainda foi brindado por agradável brincadeira de seu "chapa" americano, que o chamou de "político mais popular da Terra" e de "boa-pinta".

Mas esses eventos pitorescos, de repercussão zero além de nossas fronteiras, não são mais do que pequenos sinais de um processo histórico mais longo de crescimento do Brasil.

No G20 passamos a imagem de um presidente popular na origem e no destino liderando um país que amadurece e quer ser responsável o suficiente para jogar na primeira liga das nações, buscando representar países pobres do Sul moreno.

Para isso, porém, não bastará a boa imagem de Lula e do Brasil. A liderança, em qualquer esfera, traz custos. Para atingir seu potencial, o país precisará investir mais em organismos multilaterais, nas Forças Armadas, no desenvolvimento de nossos vizinhos, em diplomacia e em promoção comercial.

E o Brasil obviamente não é o único emergente que almeja nova posição. Por isso cabe aqui a comparação com a China, que avança sobre os mercados globais de forma agressiva e com uma estratégia clara de alianças e parcerias.

A seriedade e o comprometimento chinês com esse objetivo deveriam servir de estímulo e lição ao Brasil de que o vir-a-ser potência é árduo e custoso. O sisudo presidente chinês, Hu Jintao, teve em Londres encontros de trabalho paralelos ao G20 com os líderes de EUA, Reino Unido, Rússia, Japão, Austrália, Coreia do Sul e o próprio Lula.

Já Lula encontrou-se na cidade de forma bilateral apenas com o próprio chinês, que não tem nem uma gota do carisma e da simpatia do brasileiro, mas parece ter ido a Londres disposto a selar apoios e alianças com o maior número possível de líderes.

Se não aliarmos nossa simpatia e nossas aspirações a esse árduo trabalho diplomático-econômico, podemos acabar como o convidado pobre que senta à mesa dos ricos apenas para aliviar suas consciências e produzir um falso retrato de inclusão.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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