Pensata

Sérgio Malbergier

13/08/2009

Destruição criativa

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Destruição criativa foi o termo cunhado pelo economista Joseph Schumpeter para descrever o avanço do capitalismo por meio da substituição violenta de modelos econômicos anacrônicos por novos arranjos mais eficientes e inovadores.

Nesta destrutiva crise global, dos escombros já em regeneração do capitalismo financeiro, emergem novidades extraordinárias para o Brasil.

A mais importante e mais evidente é o nosso sólido desempenho na crise. Foi o primeiro grande teste da estabilidade econômica brasileira pós-Real, de mais de 15 anos.

Partes menos competitivas da economia e mais dependentes de crédito e exportações sucumbiram com o colapso dos mercados globais. De um ritmo de crescimento de quase 6% ao ano, capotamos para uma retração de 3,6% do PIB no último trimestre de 2008. Uma reversão de proporções tsunâmicas, mas rápida e pouco dolorosa para a imensa maioria dos brasileiros.

Alavancados nessa nova estabilidade, num sistema financeiro e numa política monetária responsáveis e em medidas anticíclicas eficazes, voltamos a crescer já em maio. E reforçamos, com essa rápida recuperação, nossa atratividade aos investidores externos e internos.

Já na geopolítica, não houve recuo, só avanços.

Como se Deus fosse brasileiro (ou lulista), era a vez de o Brasil abrigar e co-conduzir, no auge da crise, em novembro, a reunião do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo que se tornou, ao menos por enquanto, o principal fórum global.

O carisma de Lula e a estabilidade político-econômica brasileira cativaram os homens loiros de olhos azuis a quem o petista atribuiu, sem medo de ser racista, a crise. O mundo quer gostar de Lula. Cercado de brutamontes pré-históricos como Chávez e Kirchners, Lula, para quem vê do Norte, é um líder simpático que aceita as regras básicas do jogo liberal capitalista e as defende em sua vizinhança hostil.

No Brasil, ao menos, Francis Fukuyama tinha razão: venceu a democracia liberal. E é essa tardia e progressista fukuyamização, claro, o maior legado lulista. Podemos ser imaturos politicamente, corruptos, arcaicamente esquerdistas em nossa política externa. Mas aceitamos as regras básicas do jogo capitalista e democrático.

E se para quem vê de fora o Brasil avança em linha reta, aqui de dentro é notável o apodrecimento político e o acirramento de tensões que prometem conflagrar ainda mais o país rumo às eleições do ano que vem.

A decisão de Lula de antecipar a disputa eleitoral para o meio do seu mandato, necessária para viabilizar Dilma, traz consequências desastrosas ao país. Tudo o que o governo faz cai nesse buraco. Grandes políticas de Estado, como a regulação da exploração das reservas de petróleo do pré-sal, são adaptadas à estreita lógica eleitoral e ao calendário Dilma.

Da guerra entre as duas maiores TVs brasileiras aos choques no Senado, dos investimentos do PAC ao programa de habitação popular, dos reajustes ao funcionalismo aos aumentos aos aposentados, tudo é contaminado pelo turbilhão eleitoral que promete uma campanha sangrenta em 2010.

Se da destruição econômica saímos mais fortes, precisamos transformar também a destruição política em curso em destruição criativa, que gere alternativas viáveis a esse sistema político podre e insuportável.

O poder de difusão e mobilização que a internet terá em 2010 é a única novidade que pode começar a mudar a política nacional. Não podemos deixar a política só para os políticos.

P.S.: Recebo por email convocação para manifestação Fora Sarney (www.forasarney.com) neste sábado, às 14 horas, no vão do MASP, em São Paulo, e em várias capitais brasileiras. Sarney proibiu manifestações no Senado, botou um seu subordinado no comando da TV da Casa, censurou o jornal "O Estado de S. Paulo" e parece ter cortado a energia da retransmissora da MTV no Maranhão na hora em que traria debate político livre aos seus rincões. Proteste!

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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