Pensata

Sérgio Malbergier

21/09/2009

Linda, plausível e errada

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O presidente Lula e sua ministra-candidata, Dilma Rousseff, repetem como mantra a tese de que essa última crise capitalista provaria a necessidade do governo grande.

Se ela provou algo, e ainda estamos perto demais para conclusões definitivas, é que o sistema financeiro estava excessivamente desregulado e alavancado no ar.

Com o seu colapso global, há um ano, o crédito secou e as economias pararam.

Fez-se necessária uma enorme injeção pública, a única disponível nesses momentos, de estamina e dinheiro para segurar a atividade econômica. Novamente, o Estado se provou essencial na crise.

No Brasil, porém, essa função histórica e emergencial de Estado está sendo usada espertamente para justificar a engorda permanente da máquina pública, um pantagruel cujos tributos já comem mais de 35% de tudo o que produzimos anualmente.

E dá em troca quase nada: a educação e a saúde pública são lamentáveis, não há segurança, a infraestrutura é uma porcaria, o sistema tributário é insano, o Judiciário não funciona, o sistema político é corrupto de A a Z...

Sim, o governo Lula foi bem na administração da crise usando sua expertise monetária e sua capacidade de investir, desonerar e conceder créditos.

Mas isso não quer dizer que o Estado seja melhor que a iniciativa privada para conduzir nossa economia em tempos de paz. Ele atrapalha muito ao retirar de seus agentes dinheiro que poderia ser canalizado para gastos e investimentos que geram empregos e desenvolvimento.

Das obras de infraestrutura, avançam apenas as de parceria público-privada. O Estado geralmente não sabe nem consegue investir, mas gastar e arrecadar.

Em entrevista publicada pela Folha neste domingo, Dilma trovejou: "O que se viu no mundo nos últimos tempos é que a tese do Estado mínimo é uma tese falida, ninguém aplica, só os tupiniquins. Nós somos extremamente a favor do Estado que induz o crescimento, o desenvolvimento, que planeja".

Ora, quem aplica a tese do Estado mínimo no Brasil? O único capaz de fazê-lo seria o governo federal. No caso atual, o governo Lula, o governo da Dilma. Não parece ser o caso.

Como tudo hoje no Brasil dos políticos está ligado a 2010, constrói-se a retórica do Estado forte para o PT acusar o PSDB de privatista e se vender como defensor das riquezas nacionais, mais capaz de geri-las do que as empresas privadas e os outros partidos.

É um discurso falso, no qual nem Lula acredita.

Enquanto no mundo rico, ainda muito mais desenvolvido política e economicamente do que nós, os governos estudam como sair da crise e aliviar o peso extra que colocaram nos ombros de seus cidadãos, no Brasil, apesar de tantos avanços, conseguimos, exatos 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, falar em Estado forte na economia.

Como lembra a frase do jornalista e ensaísta americano H. L. Mencken (1880-1956): "Há sempre uma solução fácil para todo problema humano - linda, plausível e errada".

É assim a explicação pró-Estado pós-crise dos grandes petistas: linda, plausível e errada. Pior ainda: eleitoreira.

Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.
E-mail: smalberg@uol.com.br

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