Sérgio Malbergier
Troca de lógica
A crise global armou a tempestade perfeita sobre as contas públicas brasileiras.
Se em paraísos liberais como Londres e Nova York se defende a mão do Estado para empurrar a economia, por que será a estatólatra Brasília a segurá-la? Mais: Por que será o governo do PT, na véspera de uma difícil eleição presidencial, moderador do gasto público?
Nos países ricos e avançados (sim, apesar do que você ouve dos neo-ufanistas, ainda somos muito mais pobres e atrasados que eles), economias longe da plena recuperação já se preocupam em encontrar saídas para o aumento dos deficits públicos pós-gastança.
Aqui, após uma boa gestão da crise por parte de Lula e seu trio (Meirelles, Mantega e Coutinho), emprego e crescimento não só se recuperam como apontam para uma expansão sustentável.
A necessidade, urgente, de manter o pulso da economia com injeção estatal passou. E deixou o caixa do governo apertado. Chegou a hora, diria qualquer sensato, de ao menos reavaliar os gastos e priorizar novamente o equilíbrio fiscal.
Mas a racionalidade econômica que marcou o governo Lula até aqui e nos fez chegar tão longe deu lugar a uma nova lógica, a da política, que tem razões que a própria razão desconhece.
O governo repete em coro agressivo que esta crise, parida na devassidão liberal dos mercados financeiros, "provou" que o Estado deve conduzir a economia. E o PT é o partido do Estado, Lula e Dilma seus comandantes.
O discurso está pronto: a candidata (ou candidato) do governo manterá a mão do Estado estendida aos brasileiros, eleja-a (o) e seu futuro está garantido.
O problema, obviamente, é que essa mão é corrupta, ineficiente, lenta, injusta, cara.
Quando o presidente dos EUA Franklin Delano Roosevelt inaugurou o modelo de intervenção estatal anticrise nos anos 1930, criou junto um órgão para fiscalizar a qualidade do gasto público e combater a corrupção. Aqui, o governo Lula ataca o tribunal encarregado de fiscalizar esses gastos (o TCU) e prepara mudanças para esterilizá-lo.
E tem mais: as medidas que mais fizeram efeito na retomada brasileira não foram gastos direcionados pelo governo, mas desonerações da indústria e liberações de depósitos compulsórios.
Ou seja: o governo ajudou mais a atividade econômica não ao gastar, mas ao abrir mão de recursos e deixá-los nas mãos dos agentes privados da economia.
E, acrescentando insulto ao prejuízo, quando tentou conter despesas, o governo mandou a Receita Federal, sorrateiramente, segurar a restituição do Imposto de Renda pago a mais pelos contribuintes em 2008.
Deve ter pensado que ninguém descobriria. Até o repórter Leonardo Souza furar o plano com manchete na Folha na semana passada. Pego em flagrante, o governo recuou e promete retomar as restituições devidas.
Deu os anéis, mas ficou com a mão, cheia, no seu bolso.
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Sérgio Malbergier é editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: smalberg@uol.com.br |

