Fernando Canzian
22/01/2007
Qualificar Chávez como dinossauro, atrasado, populista e bufão é fácil em um mundo que avança inexoravelmente rumo à globalização; onde o "mercado" é um imenso porrete pronto a esmagar economias que ousarem sair da linha.
A internacionalização maciça dos mercados e a adoção de normas e leis cada vez mais homogêneas têm esse efeito: o poder de manobra de qualquer país ou de organizações multinacionais é extremamente limitado por esse regime de regras.
A Venezuela de Chávez tem procurado ser uma exceção nesse universo monolítico, para desespero dos venezuelanos mais abastados e internacionalizados.
Grande parte da importância de Chávez reside exatamente no fato de ele ser tão diferente que é impossível deixar de olhar para ele. Mas Hugo Chávez não caiu do céu e tampouco comanda um país irrelevante. A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo e é o quinto produtor. É crucial aos interesses dos EUA nessa área.
O mais importante, porém, é o fato de Chávez ter um mandato popular até 2013. No mínimo, ficará 14 anos na Presidência da Venezuela, aonde chegou com discursos e medidas populistas. O ponto é que havia um imenso espaço para esse populismo, aberto por anos de desinteresse da elite local pelo bem-estar de todos os venezuelanos.
Agora, é colher o que foi plantado. E é pouco provável que a coisa acabe bem, econômica e politicamente.
Nesse contexto, o Brasil passou raspando por algo parecido algumas vezes, nas tentativas anteriores e frustradas de Lula de chegar à Presidência. Até 2002, antes de sua conversão ao mercado globalizado, em termos econômicos Lula representava apenas um barbudo primitivo que não entendia nada do mundo em transformação em que vivia.
Mas, quando chegou a hora do vamos ver, já sentado na cadeira de presidente, Lula estendeu com prazer a mão direita ao FMI e aos mercados. Com a outra, passou a distribuir dinheiro de impostos (infelizmente, não temos tanto petróleo) aos mais pobres, sua massa de eleitores.
Pode-se gostar ou não da atual configuração no Brasil. Seria apenas populismo de "boca do caixa"? Mas uma das alternativas à não-existência de um Lula pró-mercado e "pai dos pobres" talvez fosse um João Pedro Stédile à la Chávez mandando no Brasil.
O exemplo de Chávez
Em sua passagem pelo Brasil na semana passada, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, desempenhou ao vivo seu papel de significativo contraponto na América Latina e no mundo.Qualificar Chávez como dinossauro, atrasado, populista e bufão é fácil em um mundo que avança inexoravelmente rumo à globalização; onde o "mercado" é um imenso porrete pronto a esmagar economias que ousarem sair da linha.
A internacionalização maciça dos mercados e a adoção de normas e leis cada vez mais homogêneas têm esse efeito: o poder de manobra de qualquer país ou de organizações multinacionais é extremamente limitado por esse regime de regras.
A Venezuela de Chávez tem procurado ser uma exceção nesse universo monolítico, para desespero dos venezuelanos mais abastados e internacionalizados.
Grande parte da importância de Chávez reside exatamente no fato de ele ser tão diferente que é impossível deixar de olhar para ele. Mas Hugo Chávez não caiu do céu e tampouco comanda um país irrelevante. A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo e é o quinto produtor. É crucial aos interesses dos EUA nessa área.
O mais importante, porém, é o fato de Chávez ter um mandato popular até 2013. No mínimo, ficará 14 anos na Presidência da Venezuela, aonde chegou com discursos e medidas populistas. O ponto é que havia um imenso espaço para esse populismo, aberto por anos de desinteresse da elite local pelo bem-estar de todos os venezuelanos.
Agora, é colher o que foi plantado. E é pouco provável que a coisa acabe bem, econômica e politicamente.
Nesse contexto, o Brasil passou raspando por algo parecido algumas vezes, nas tentativas anteriores e frustradas de Lula de chegar à Presidência. Até 2002, antes de sua conversão ao mercado globalizado, em termos econômicos Lula representava apenas um barbudo primitivo que não entendia nada do mundo em transformação em que vivia.
Mas, quando chegou a hora do vamos ver, já sentado na cadeira de presidente, Lula estendeu com prazer a mão direita ao FMI e aos mercados. Com a outra, passou a distribuir dinheiro de impostos (infelizmente, não temos tanto petróleo) aos mais pobres, sua massa de eleitores.
Pode-se gostar ou não da atual configuração no Brasil. Seria apenas populismo de "boca do caixa"? Mas uma das alternativas à não-existência de um Lula pró-mercado e "pai dos pobres" talvez fosse um João Pedro Stédile à la Chávez mandando no Brasil.
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Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Escreve semanalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |
