Pensata

Fernando Canzian

25/06/2007

"Relaxa e goza"

da Folha Online

"Nunca se perde dinheiro apostando contra o Brasil".

"Para fazer uma pequena fortuna na Bolsa brasileira, basta aplicar uma grande fortuna".

Essas são algumas das máximas cínicas correntes entre alguns jornalistas de economia que viveram os últimos 20 anos na montanha russa dos planos econômicos do Brasil.

Cruzados 1 e 2, Bresser, Verão, Collor 1 e 2, Real e, finalmente, Lula/FMI e seu receituário ortodoxo a partir de 2003. São tantos os planos quantos os anos perdidos atrás de uma estabilização difícil de ser alcançada.

A situação atual tem animado muita gente. Há comentários sobre uma década de ouro que teríamos pela frente, algo parecido com o que nossos pais viveram há quase 40 anos. Tomara.

No meio dessa animação tem sido um pouco difícil encontrar espaço para críticas ou audiência para determinados alertas. Afinal, as coisas de fato estão bem. O Brasil tem um saldo comercial invejável (acima de US$ 40 bilhões) e espera ter reservas na faixa de US$ 200 bilhões até o final deste ano. A relação dívida/PIB está caindo, assim como os juros.

Cabe lembrar, no entanto, que o Brasil vive hoje um momento muito bom empurrado por uma conjuntura internacional estupenda, com a China colocando milhões de pessoas no mercado de consumo ávidas por comida e matérias-primas (commodities) exportadas por países como o Brasil. E com o mundo crescendo de maneira mais ou menos homogênea, não mais pendurado somente nos EUA.

Sorte faz parte da vida, e Lula é um cara de sorte por estar no meio dessa conjuntura enquanto ocupa a cadeira de presidente da República. Como brasileiros, precisamos torcer para que isso vá em frente.

Mas uma mistura de tradição ibérica, provincianismo e gigantismo do Estado brasileiro (que suga 35% do PIB em impostos) ainda faz do Brasil um país extremamente subordinado e dependente do humor e movimentos do setor público.

O Estado mete o bedelho diariamente na vida dos cidadãos, quase sempre negativamente. Seja via impostos, multas, hospitais desaparelhados, concessões de transporte público a empresas incompetentes ou, mais recentemente, na administração do espaço aéreo. É difícil olhar para um lado e não ver a pata do setor público por perto.

Não é só no palavreado (o "relaxa e goza" de Marta ou "a crise é progresso" de Mantega). Há uma interferência real que mina as condições de o país deslanchar como poderia.

Nos últimos anos, esse Estado brasileiro cresce de maneira voraz, acima da evolução média do crescimento econômico. Um gigantismo sustentado pelo contribuinte, via carga tributária, que torna-se permanente.

Riquezas que poderiam estar dando mais gás ao setor privado acabam consumidas em gastos correntes de um Estado que não consegue nem garantir a segurança dos cidadãos ou emitir passaportes em prazos razoáveis.

As máximas negativas lá do início podem estar ultrapassadas. Mas não deixa de ser muito interessante a atual animação com o Brasil.

Parece um bom momento para deixar outras preocupações de lado.

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Escreve semanalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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