Pensata

Fernando Canzian

20/08/2007

É grave a crise?

O recente tumulto financeiro trouxe à tona as velhas indagações sobre o destino da economia brasileira. Até agora, o país saiu ileso. Os maiores chamuscados são os que têm algum dinheiro aplicado na Bolsa de Valores ou em fundos com lastro em ações. A minoria entre a minoria no Brasil.

Mesmo assim, quem perdeu dinheiro não tem do que reclamar, pois ganhou muito nos últimos meses e anos. Os verdadeiros perdedores são somente os que se empolgaram a partir de fevereiro ou março e resolveram se arriscar no mercado de ações --um mar de recompensas infestado de tubarões.

É grave a crise? Por enquanto, a melhor resposta é um indeciso talvez.

A economia mundial atravessa atualmente seu melhor período em mais de 30 anos. São cinco anos seguidos (2007 incluso) de forte crescimento, acima de 5%. EUA e China juntos foram responsáveis, no ano passado, por 35% desse crescimento. Essa é a chave do problema.

O epicentro da atual crise são os EUA, e o terremoto abala exatamente o principal combustível da economia norte-americana: o mercado de crédito. Por enquanto, o problema está restrito ao setor imobiliário.

Há menos de três anos, em Washington, alugava uma ótima casa de uma família que se mudara dali para uma residência maior, em um bairro mais caro. Um casal e dois filhos. A mulher não trabalhava e o marido tinha uma empresa modesta de prestação de serviços.

Em 2003, esses americanos estavam comprando duas casas com o rendimento de apenas uma pessoa. Deram a casa que alugavam (ainda sendo paga) como garantia para um empréstimo e compraram outra maior e mais cara, também financiada. É bem possível que o empréstimo concedido a esses senhorios esteja no rolo do chamado "subprime", os créditos de segunda linha do setor imobiliário que originaram a atual crise.

A crise resulta dessa farra de crédito sobre a qual a economia norte-americana se sustenta cada vez mais. Todos esses créditos são lastreados em garantias muitas vezes duvidosas, como casas ainda não totalmente quitadas. E a nova casa adquirida com o crédito lastreado em uma residência não paga acaba muitas vezes virando "garantia" para mais crédito --e por aí vai. Tudo isso é reembalado em novas garantias e créditos, se espalhando em vários mercados além do imobiliário.

É esse o elo que agora se rompeu. Quem tem dinheiro a receber por créditos concedidos a pagadores duvidosos constatou que muitos dos seus clientes não estão conseguindo honrar os papagaios.

Muitos dos bancos e empresas envolvidos nesse carrosel têm dinheiro aplicado em países como o Brasil, seja em papéis do governo ou na Bolsa. Ao deixarem de receber o dinheiro que emprestaram a seus clientes, tiveram de tapar os buracos vendendo ativos (ações, títulos etc.) em outros países. Limparam a prateleira. Daí a forte desvalorização na Bolsa e a subida do dólar na semana passada.

Até onde isso prejudicará o melhor período econômico mundial em 30 anos? É difícil avaliar. No mundo real, das empresas, dos trabalhadores e dos salários, a coisa ainda caminha muito favorável, com lucros recordes e boas perspectivas em várias partes do mundo.

Se a crise ficar restrita a uma pequena parcela do setor de crédito nos EUA, a calmaria tende a voltar. Mas quem vive nesse mercado hoje se sente como se estivesse em uma festa onde todos os convidados dizem ter ótimos antecedentes. Problema: algumas carteiras começaram a sumir e ninguém sabe se há um, dois, ou vários gatunos no pedaço.

Essa desconfiança pode fazer com que bancos e financeiras nos EUA pisem no freio da concessão de novos créditos, arruinando a festa de consumo americana. Hoje, cerca de US$ 17 trilhões (o equivalente a 150% do PIB dos EUA) são concedidos em crédito às famílias no país. No Brasil, isso não passa de 35% do PIB.

Caso isso ocorra, os EUA tendem a esfriar, prejudicando principalmente a China, que exporta grande parte de seus produtos para os EUA. Ou seja, os principais motores do crescimento mundial vão ratear.

Para o Brasil, seria um problema, já que os EUA compram 18% de tudo o que exportamos e é o crescimento chinês, na faixa de 10% ao ano, que vem aquecendo os preços de produtos básicos como alimentos e minérios (as commodities), garantindo bons saldos na balança comercial brasileira.

Apesar de toda a blindagem que o Banco Central e o Tesouro fizeram nos últimos anos, empilhando mais de US$ 150 bilhões em reservas e reduzindo a dívida pública indexada ao dólar, a crise pode nos pegar dessa vez pela porta dos fundos, levando a uma lenta deterioração.

Isso ainda está muito longe de acontecer. No primeiro semestre, o comércio brasileiro registrou 9,9% de alta, um recorde, e a indústria aumentou a produção em 4,8%. A massa salarial cresceu 6,4% é há uma série de investimentos em curso em vários setores. Isso tudo pode azedar? Sim, mas não de uma hora para a outra. A taquicardia ficará ainda muito restrita ao mercado.

O que é certo: quanto mais forte e longa a turbulência, maiores as chances de a casa cair.

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Escreve semanalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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