Vinicius Mota
06/03/2005
Eles vão do marxismo mais vulgar --aquele que enxerga em todo arranjo de governo nada mais que um posto avançado a garantir os interesses econômicos da classe dominante-- às várias formas de naturalização do poder --idéias de que emana de Deus, de que é ou deveria ser exercido pela casta dos mais aptos intelectualmente, como expressão da mais cristalina Razão.
Para o cineasta Michael Moore, George W. Bush exerce o poder com o fito de enriquecer ainda mais os grupos econômicos e dinásticos que se acercaram da Casa Branca com a sua ascensão. Para os mais ardorosos defensores da política do segundo Bush, os radicais cristãos da nova direita do Partido Republicano, o presidente age para livrar o mundo do mal.
Mas Bush, por mais radical que pretendesse ser ao assumir como o 43° presidente dos EUA em janeiro de 2001, certamente não teria as condições de atuar com a plenitude com que de fato tem atuado não fossem os atentados de 11 de setembro daquele mesmo ano. Havia todo um aparato institucional e político a dificultar essa guinada. A começar pelo próprio time de assessores da Casa Branca que constituía o tradicionalmente poderoso Conselho de Segurança Nacional (CSN), cuja direção foi assumida à época por Condoleezza Rice.
Embora Rice hoje seja a mais fiel escudeira de Bush, de quem por vezes fala com o fervor típico de um devoto se referindo a padre Cícero, ela no início não destoava da linhagem que prevalecia no CSN desde que o conselho ganhara sua feição moderna, estabelecendo-se como um receptáculo de uma elite intelectual e política bem situada - oriunda de um pequeno número de universidades americanas de primeira linha - e constituído por meio de indicações pessoais a partir de um círculo de sociabilidade estreito e muito coeso.
Rice havia integrado a equipe do CSN durante o governo de Bush pai (1989-1993), então dirigido por Brent Scowcroft. Scowcroft, por sua vez, ocupara o posto de conselheiro de segurança nacional na gestão de Gerald Ford (1974-1977). No início dessa linhagem, encontramos Henry Kissinger, que foi o conselheiro de segurança nacional de 1969 a 1973, no primeiro governo de Richard Nixon. No CSN de Nixon, Scowcroft era o braço direito de Kissinger - relação que ambos mantêm até hoje no setor privado, sendo Scowcroft vice-presidente da empresa de consultoria internacional Kissinger Associates.
Scowcroft, tutor de Condoleezza Rice no conselho do primeiro Bush, escreveu um famoso artigo para o "Wall Street Journal" em 15 de agosto de 2002 intitulado "Não ataquem Saddam" (http://ffip.com/opeds081502.htm).
O título do artigo, escrito sete meses antes do início da invasão americana, é auto-explicativo. Mas a argumentação de Scowcroft é toda ela baseada na tradição de pensamento estratégico forjada ao longo de mais de três décadas - período no qual prevaleceram governos do Partido Republicano --no Conselho de Segurança Nacional e nos núcleos acadêmicos e políticos que o circundavam nos EUA: o pragmatismo.
Essa tradição, vale lembrar, freqüentemente levou os EUA a apoiar golpes e regimes antidemocráticos e jamais abriu mão do uso da força. Por outro lado, e essa é a diferença a ressaltar, valorizava as alianças estratégicas e, também em razão disso, não desprezava os organismos internacionais. Essa linha pragmática, ou tradicionalista, foi a que ajudou os EUA a vencer a Guerra Fria evitando o conflito frontal com os soviéticos, ansiado por uma certa corrente de pensamento estratégico americana.
Rice, portanto, teve de se afastar da linhagem de seus predecessores para levar a termo a política de George W. Bush após o 11 de Setembro. E a Casa Branca, por sua vez, modificou a sua relação com o CSN, diminuindo o poder do conselho de influir na elaboração das grandes decisões sobre segurança nacional, que, nos EUA, quase sempre significam decisões de política externa.
**
Para esta coluna, tomei como base o artigo "Inside the comittee that runs the world" (por dentro do comitê que governa o mundo), do analista de relações internacionais americano David J. Rothkopf.
Vale a leitura para quem quiser aprofundar-se no tema. Rothkopf levanta hipóteses segundo as quais, em sua opinião, o segundo governo Bush pode tornar-se menos radical e mais pragmático neste segundo mandato. Entre essas conjecturas, menciona a ida de Condoleezza Rice para o Departamento de Estado, onde, acredita o autor, Rice tende mais a ser influenciada pelo corpo experiente e pragmático de diplomatas que lá está do que ela própria tornar-se um vetor de mudança da corporação no sentido do radicalismo de direita de Bush.
O artigo foi publicado no último número (março-abril) da revista especializada em política externa "Foreign Policy" --clique aqui.
O poder em carne e osso
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Há um comportamento freqüente em acadêmicos, analistas e militantes políticos e jornalistas quando vão lidar com o poder, especialmente com os níveis mais altos de onde ele é exercido. Esquecem as pessoas. Esquemas de interpretação tão abstratos quanto a palavra --"poder", há de se convir, é possivelmente o termo mais abstrato do léxico universal -- costumam entrar em cena.Eles vão do marxismo mais vulgar --aquele que enxerga em todo arranjo de governo nada mais que um posto avançado a garantir os interesses econômicos da classe dominante-- às várias formas de naturalização do poder --idéias de que emana de Deus, de que é ou deveria ser exercido pela casta dos mais aptos intelectualmente, como expressão da mais cristalina Razão.
Para o cineasta Michael Moore, George W. Bush exerce o poder com o fito de enriquecer ainda mais os grupos econômicos e dinásticos que se acercaram da Casa Branca com a sua ascensão. Para os mais ardorosos defensores da política do segundo Bush, os radicais cristãos da nova direita do Partido Republicano, o presidente age para livrar o mundo do mal.
Mas Bush, por mais radical que pretendesse ser ao assumir como o 43° presidente dos EUA em janeiro de 2001, certamente não teria as condições de atuar com a plenitude com que de fato tem atuado não fossem os atentados de 11 de setembro daquele mesmo ano. Havia todo um aparato institucional e político a dificultar essa guinada. A começar pelo próprio time de assessores da Casa Branca que constituía o tradicionalmente poderoso Conselho de Segurança Nacional (CSN), cuja direção foi assumida à época por Condoleezza Rice.
Embora Rice hoje seja a mais fiel escudeira de Bush, de quem por vezes fala com o fervor típico de um devoto se referindo a padre Cícero, ela no início não destoava da linhagem que prevalecia no CSN desde que o conselho ganhara sua feição moderna, estabelecendo-se como um receptáculo de uma elite intelectual e política bem situada - oriunda de um pequeno número de universidades americanas de primeira linha - e constituído por meio de indicações pessoais a partir de um círculo de sociabilidade estreito e muito coeso.
Rice havia integrado a equipe do CSN durante o governo de Bush pai (1989-1993), então dirigido por Brent Scowcroft. Scowcroft, por sua vez, ocupara o posto de conselheiro de segurança nacional na gestão de Gerald Ford (1974-1977). No início dessa linhagem, encontramos Henry Kissinger, que foi o conselheiro de segurança nacional de 1969 a 1973, no primeiro governo de Richard Nixon. No CSN de Nixon, Scowcroft era o braço direito de Kissinger - relação que ambos mantêm até hoje no setor privado, sendo Scowcroft vice-presidente da empresa de consultoria internacional Kissinger Associates.
Scowcroft, tutor de Condoleezza Rice no conselho do primeiro Bush, escreveu um famoso artigo para o "Wall Street Journal" em 15 de agosto de 2002 intitulado "Não ataquem Saddam" (http://ffip.com/opeds081502.htm).
O título do artigo, escrito sete meses antes do início da invasão americana, é auto-explicativo. Mas a argumentação de Scowcroft é toda ela baseada na tradição de pensamento estratégico forjada ao longo de mais de três décadas - período no qual prevaleceram governos do Partido Republicano --no Conselho de Segurança Nacional e nos núcleos acadêmicos e políticos que o circundavam nos EUA: o pragmatismo.
Essa tradição, vale lembrar, freqüentemente levou os EUA a apoiar golpes e regimes antidemocráticos e jamais abriu mão do uso da força. Por outro lado, e essa é a diferença a ressaltar, valorizava as alianças estratégicas e, também em razão disso, não desprezava os organismos internacionais. Essa linha pragmática, ou tradicionalista, foi a que ajudou os EUA a vencer a Guerra Fria evitando o conflito frontal com os soviéticos, ansiado por uma certa corrente de pensamento estratégico americana.
Rice, portanto, teve de se afastar da linhagem de seus predecessores para levar a termo a política de George W. Bush após o 11 de Setembro. E a Casa Branca, por sua vez, modificou a sua relação com o CSN, diminuindo o poder do conselho de influir na elaboração das grandes decisões sobre segurança nacional, que, nos EUA, quase sempre significam decisões de política externa.
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Para esta coluna, tomei como base o artigo "Inside the comittee that runs the world" (por dentro do comitê que governa o mundo), do analista de relações internacionais americano David J. Rothkopf.
Vale a leitura para quem quiser aprofundar-se no tema. Rothkopf levanta hipóteses segundo as quais, em sua opinião, o segundo governo Bush pode tornar-se menos radical e mais pragmático neste segundo mandato. Entre essas conjecturas, menciona a ida de Condoleezza Rice para o Departamento de Estado, onde, acredita o autor, Rice tende mais a ser influenciada pelo corpo experiente e pragmático de diplomatas que lá está do que ela própria tornar-se um vetor de mudança da corporação no sentido do radicalismo de direita de Bush.
O artigo foi publicado no último número (março-abril) da revista especializada em política externa "Foreign Policy" --clique aqui.
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Vinicius Mota, 33, é editor de Opinião da Folha (coordenador dos editoriais). Foi também editor do caderno Mundo e secretário-assistente de Redação da Folha. Escreve para a Folha Online aos domingos. E-mail: vinicius.mota@folha.com.br |
