Vinicius Mota
18/12/2005
Nada no Brasil, felizmente, se assemelha ao primitivismo político e institucional da Venezuela, que ainda vive na idade da pedra (alguns prefeririam "era de ouro") da populice bananeira latino-americana --modelo que, parece, Kirchner está empenhado em importar para a Argentina. Nem a grande mídia atuando fora de seu campo de legitimidade (o da competição pela notícia), identificada com a oposição; nem os opositores ansiosos para retomar o poder por qualquer meio; nem as condições totalmente abertas para o exercício acaudilhado (alguns prefeririam "revolucionário") da Presidência acima das outras instituições; nem a sociedade disposta a levar a conseqüências venezuelanas (uma rivalidade visceral e aberta) a diferença entre pobres e ricos.
O Brasil é muito mais complexo e evoluído social, política e institucionalmente do que a Venezuela. As relações de poder, aqui, são bem mais mediadas do que na terra de Hugo Chávez, onde ferro bate com ferro.
O BC desvairado
Os diretores do BC se lançam a um experimentalismo desabrido, caro e arriscado com suas intervenções heterodoxas no mercado de câmbio (estrelando agora o "swap cambial reverso", não confundir com a "banda diagonal endógena" de outros tempos). No entanto, se recusam a testar o mercado com o mecanismo ortodoxo da taxa de juros de curto prazo --por exemplo baixando-a, de um só golpe, o equivalente a duas ou três doses de seu gradualismo. As mandingas e os salamaleques no mercado futuro e as compras de moeda estrangeira à vista retiram, com uma mão, parte do que os juros ionosféricos colocam com a outra. Com a desvantagem de acumular no curtíssimo prazo mais uma pequena montanha de dívida pública generosamente remunerada.
Agindo desse modo, nossos xerifes monetários maculam a imagem "by the book" de que se dizem portadores. Mas mantêm a sua fama de maus. E torturam os fatos para que se dobrem à camisa-de-força do "PIB potencial" (que poderia variar no máximo até 3,5% ao ano) que inventaram para o Brasil. Estão conseguindo. O garrote dos juros já ajudou a conter a taxa de investimentos produtivos (o fator que expande a capacidade produtiva e, portanto, o "produto potencial" de uma economia), além do próprio PIB, no 3° trimestre.
Mais uma oportunidade perdida
O núcleo (outrora duro, agora bastante gelatinoso) do governo Lula permitiu a instauração de uma rinha pública entre os titulares da Casa Civil e da Fazenda sobre o nível do superávit primário. A recorrente inépcia desse grupo para tarefas de governo mais uma vez pôs a perder uma chance de acelerar a queda dos juros e o desendividamento do setor público. Até mesmo no Banco Central, ia se formando a convicção de que era necessário dar um choque maior de baixa na Selic. Era o momento de o governo anunciar que o superávit ficaria excepcionalmente em 5% do PIB neste 2005 e coordenar com o BC a aceleração do corte. Mas a razia pública e a incapacidade de decidir e de articular de Lula deram aos monetaristas um motivo para manter o seu graudalismo perdulário. Uns tostões para os ministros gastarem, que se esfumam em dois tempos com a Selic nas alturas em que está, não acenam com um alívio duradouro para as contas públicas. A perspectiva de que a dívida líquida do setor público pudesse baixar rapidamente, rompendo o patamar "psicológico" de 50% do PIB, sim.
Há quatro anos
"Agora, as condições da economia internacional têm melhorado, e o Brasil tem tido acesso ao mercado internacional." Assim, um Pedro Malan otimista justificava, em meados de abril de 2002, a decisão do governo brasileiro de antecipar o pagamento de US$ 4,2 bilhões de um empréstimo do FMI ainda relativo, na sua maior parte, à operação de salvamento de 1998. Bom moço, o Brasil resolveu pagar com mais de um trimestre de antecedência a parcela que só começaria a vencer em setembro daquele ano. Antes disso, porém, no início de agosto de 2002, com o Brasil mergulhado em gravíssima crise financeira impulsionada pela perspectiva da vitória de Lula nas eleições, sem crédito na praça nem para as exportações, o ministro batia às portas do Fundo para obter mais um empréstimo, de US$ 30 bilhões.
Na semana passada, o governo brasileiro anunciou a quitação antecipada de sua dívida com o FMI. No ano que vem, há eleições. Vai acontecer de novo? Não creio, pois "as condições da economia mundial têm melhorado". Mas não perderia essa piada nem a oportunidade de deixar uma pulga atrás da orelha de quem acredita na regularidade (eleitoral?) dos ciclos trágicos.
Diários de motocicleta (de Buenos Aires a Caracas)
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O hit de exemplo nefasto da campanha de 2002 era a Argentina esfrangalhada pela crise profunda. "O que eu conquistei não vou jogar pra cima; com todo o respeito, eu não vou ser outra Argentina", dizia um dos jingles da campanha serrista. Agora a Venezuela promete vir com tudo. Lula acusa a oposição e a mídia brasileiras de "golpismo", de agirem como as venezuelanas contra seu amigo cada vez mais freqüente Hugo Chávez. Antes disso, a oposição chegou a tachar de "chavistas" movimentos de Lula que tentavam uma ligação direta com a população, açulando um sentimento "antielite" entre os pobres.Nada no Brasil, felizmente, se assemelha ao primitivismo político e institucional da Venezuela, que ainda vive na idade da pedra (alguns prefeririam "era de ouro") da populice bananeira latino-americana --modelo que, parece, Kirchner está empenhado em importar para a Argentina. Nem a grande mídia atuando fora de seu campo de legitimidade (o da competição pela notícia), identificada com a oposição; nem os opositores ansiosos para retomar o poder por qualquer meio; nem as condições totalmente abertas para o exercício acaudilhado (alguns prefeririam "revolucionário") da Presidência acima das outras instituições; nem a sociedade disposta a levar a conseqüências venezuelanas (uma rivalidade visceral e aberta) a diferença entre pobres e ricos.
O Brasil é muito mais complexo e evoluído social, política e institucionalmente do que a Venezuela. As relações de poder, aqui, são bem mais mediadas do que na terra de Hugo Chávez, onde ferro bate com ferro.
O BC desvairado
Os diretores do BC se lançam a um experimentalismo desabrido, caro e arriscado com suas intervenções heterodoxas no mercado de câmbio (estrelando agora o "swap cambial reverso", não confundir com a "banda diagonal endógena" de outros tempos). No entanto, se recusam a testar o mercado com o mecanismo ortodoxo da taxa de juros de curto prazo --por exemplo baixando-a, de um só golpe, o equivalente a duas ou três doses de seu gradualismo. As mandingas e os salamaleques no mercado futuro e as compras de moeda estrangeira à vista retiram, com uma mão, parte do que os juros ionosféricos colocam com a outra. Com a desvantagem de acumular no curtíssimo prazo mais uma pequena montanha de dívida pública generosamente remunerada.
Agindo desse modo, nossos xerifes monetários maculam a imagem "by the book" de que se dizem portadores. Mas mantêm a sua fama de maus. E torturam os fatos para que se dobrem à camisa-de-força do "PIB potencial" (que poderia variar no máximo até 3,5% ao ano) que inventaram para o Brasil. Estão conseguindo. O garrote dos juros já ajudou a conter a taxa de investimentos produtivos (o fator que expande a capacidade produtiva e, portanto, o "produto potencial" de uma economia), além do próprio PIB, no 3° trimestre.
Mais uma oportunidade perdida
O núcleo (outrora duro, agora bastante gelatinoso) do governo Lula permitiu a instauração de uma rinha pública entre os titulares da Casa Civil e da Fazenda sobre o nível do superávit primário. A recorrente inépcia desse grupo para tarefas de governo mais uma vez pôs a perder uma chance de acelerar a queda dos juros e o desendividamento do setor público. Até mesmo no Banco Central, ia se formando a convicção de que era necessário dar um choque maior de baixa na Selic. Era o momento de o governo anunciar que o superávit ficaria excepcionalmente em 5% do PIB neste 2005 e coordenar com o BC a aceleração do corte. Mas a razia pública e a incapacidade de decidir e de articular de Lula deram aos monetaristas um motivo para manter o seu graudalismo perdulário. Uns tostões para os ministros gastarem, que se esfumam em dois tempos com a Selic nas alturas em que está, não acenam com um alívio duradouro para as contas públicas. A perspectiva de que a dívida líquida do setor público pudesse baixar rapidamente, rompendo o patamar "psicológico" de 50% do PIB, sim.
Há quatro anos
"Agora, as condições da economia internacional têm melhorado, e o Brasil tem tido acesso ao mercado internacional." Assim, um Pedro Malan otimista justificava, em meados de abril de 2002, a decisão do governo brasileiro de antecipar o pagamento de US$ 4,2 bilhões de um empréstimo do FMI ainda relativo, na sua maior parte, à operação de salvamento de 1998. Bom moço, o Brasil resolveu pagar com mais de um trimestre de antecedência a parcela que só começaria a vencer em setembro daquele ano. Antes disso, porém, no início de agosto de 2002, com o Brasil mergulhado em gravíssima crise financeira impulsionada pela perspectiva da vitória de Lula nas eleições, sem crédito na praça nem para as exportações, o ministro batia às portas do Fundo para obter mais um empréstimo, de US$ 30 bilhões.
Na semana passada, o governo brasileiro anunciou a quitação antecipada de sua dívida com o FMI. No ano que vem, há eleições. Vai acontecer de novo? Não creio, pois "as condições da economia mundial têm melhorado". Mas não perderia essa piada nem a oportunidade de deixar uma pulga atrás da orelha de quem acredita na regularidade (eleitoral?) dos ciclos trágicos.
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Vinicius Mota, 33, é editor de Opinião da Folha (coordenador dos editoriais). Foi também editor do caderno Mundo e secretário-assistente de Redação da Folha. Escreve para a Folha Online aos domingos. E-mail: vinicius.mota@folha.com.br |

