Vinicius Mota
02/04/2006
Demissão de assessor 1: a regra é fritar o ministro ou o secretário que se tornou um estorvo, mas sem deixá-lo torrar. Não faça como Lula. A demissão de Palocci passou muito do ponto. Tivesse sido feita quando suas desculpas para as caronas de avião começaram a ir pelos ares, o efeito seria nulo para o Planalto e o mercado. Depois do episódio do sigilo do caseiro, quase derruba o governo todo junto (leia o verbete "Escala Palocci", abaixo).
Demissão de assessor 2: em crises, a iniciativa deve ser sempre do chefe. Diga claramente ao infeliz que espera a sua carta de demissão para já (essa é a melhor saída). Se não der, simplesmente mande o porta-voz anunciar o desligamento em um parágrafo, no máximo. Não faça como Lula, que escalou o senador Mercadante para um dos pronunciamentos mais estapafúrdios que se tem notícia e deixou Palocci livre para fazer um último ataque especulativo na própria carta que pedia "afastamento" (algo que poderia ser provisório) do cargo.
Escala Mattoso: a escala Mattoso, que vai de 1 a 3, passa a definir o que, em política, é uma situação de "filme queimado", quando já não existe solução sem cirurgia, restando saber apenas a magnitude da intervenção. Em Mattoso 1, seu assessor ordenou a devassa na conta do caseiro e o sigilo acaba de vazar; se sair nesse momento assumindo a responsabilidade, o estrago é pontual (anestesia local). Em Mattoso 2, ele abriu inquérito com 15 dias de prazo para descobrir que ele mesmo está na origem do fato (peridural, com algum risco de seqüelas). Em Mattoso 3, dez dias depois ele foi à polícia e entregou todo mundo (anestesia geral, com risco ponderável de septicemia, morte ou invalidez).
Escala Palocci: a escala Palocci tem a mesma gradação da Mattoso, mas mede o teor de inverosimilhança das desculpas de seu assessor para livrar-se de acusações. Em Palocci 1, ele chama uma coletiva no domingo, dá um show de bola e acalma o mercado financeiro e os analistas. Em Palocci 2, corrige "a posteriori" desmentidos publicados na imprensa invocando imprecisões terminológicas. Em Palocci 3, silêncio, fuga da imprensa. Jamais deixe seu assessor pular de 2 para 3 (leia verbete "Demissão de assessor 1").
Esperteza: desconfie sempre de que você a domina e não julgue que seu adversário seja desprovido dela. José Serra ficou meses na moita, acalentando a idéia de que seria ungido candidato a presidente pelo PSDB porque, afinal, era o melhor tucano nas pesquisas. "Sábia atitude", pensaram muitos, "tudo o que ele disser agora poderá pesar contra ele, e a estridência do Alckmin é típica de quem está desesperado". Feitas as contas, quem era mesmo o esperto? Serra ficou com o ônus de sair da prefeitura (fez justamente o que os alckmistas diziam que ele não deveria fazer, pois deporia contra uma palavra empenhada e poria em risco o partido), mas o candidato ao Planalto continua sendo Alckmin. Se fosse para renunciar, por que Serra não aceitou disputar as prévias com o governador?
Garçonnière: evite mansões freqüentadas por muita gente. Dê preferência a locais reservados, em diferentes pontos da cidade ou do país. Não deixe o assunto, muito menos sua logística, nas mãos de mais de um assessor, de preferência alguém do tipo que seqüestraria a própria mãe por você. Não misture esse aspecto de sua carreira com outros ramos de negócios.
Idéias geniais para sair de crises: afora o suicídio, que tem algum custo, elas não existem. O melhor que você faz é asfixiá-las todas no ninho. Alguém bastante graduado no governo Lula, mas que não sabia da missa a metade, achou que revelar ao público depósitos suspeitos na conta do caseiro Francenido fosse virar o jogo em um repente. Não cometa idiotice desse nível, pois é fatal.
Investigar: conjugue o verbo em todas as flexões. Se há uma acusação contra seu governo, à primeira indagação diga que deu ordens expressas a seus assessores para apurar tudo, até as últimas conseqüências. Não faça como Alckmin, que passou pelo constrangimento de ter sido lembrado em público pelo presidente de seu partido dessa necessidade retórica.
Primeira-dama: cuidado com ela! Tão logo você assume e vai cuidar das chatices do dia-dia, um enxame de estilistas, esteticistas, cabeleireiros, joalheiros etc. ataca a sua mulher. São bastante solícitos, se recusam a cobrar por seus mimos e, infelizmente, ela é presa fácil. Escale um bedel para conter esse assédio e/ou agregue à rotina semanal, registrada em agenda, uma checagem minuciosa do guarda-roupas, do cabelo, da maquiagem e dos acessórios dela. A vantagem adicional dessa abordagem é que a primeira-dama tende a sentir-se lisonjeada com tamanha atenção a sua pessoa.
Promessa por escrito: não faça como José Serra nem Antonio Palocci; nunca assine documento dizendo que se compromete a cumprir o mandato até o fim caso seja eleito; indagado, restrinja-se a afirmar que completar os quatro anos é a sua intenção sincera, pois sua vocação maior na política é servir ao povo, e mude logo de assunto.
Tiro no pé (como evitar)
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O que é danação sem remédio para quem preza a moral republicana pode tornar-se ganha-pão nas mãos de um adepto da subliteratura de auto-ajuda que há mais de década abarrota as livrarias. Do limão da crise política e dos políticos, esse Maquiavel de arrabalde faria uma limonada e organizaria um pequeno volume destinado a aconselhar, pelo contraste, os que pretendem passar pela carreira de representantes do povo sem maiores percalços. Deixando toda consideração moral de lado, nosso autor escreveria um manual de sobrevivência na política em tempos bicudos. Os verbetes poderiam ser mais ou menos estes:Demissão de assessor 1: a regra é fritar o ministro ou o secretário que se tornou um estorvo, mas sem deixá-lo torrar. Não faça como Lula. A demissão de Palocci passou muito do ponto. Tivesse sido feita quando suas desculpas para as caronas de avião começaram a ir pelos ares, o efeito seria nulo para o Planalto e o mercado. Depois do episódio do sigilo do caseiro, quase derruba o governo todo junto (leia o verbete "Escala Palocci", abaixo).
Demissão de assessor 2: em crises, a iniciativa deve ser sempre do chefe. Diga claramente ao infeliz que espera a sua carta de demissão para já (essa é a melhor saída). Se não der, simplesmente mande o porta-voz anunciar o desligamento em um parágrafo, no máximo. Não faça como Lula, que escalou o senador Mercadante para um dos pronunciamentos mais estapafúrdios que se tem notícia e deixou Palocci livre para fazer um último ataque especulativo na própria carta que pedia "afastamento" (algo que poderia ser provisório) do cargo.
Escala Mattoso: a escala Mattoso, que vai de 1 a 3, passa a definir o que, em política, é uma situação de "filme queimado", quando já não existe solução sem cirurgia, restando saber apenas a magnitude da intervenção. Em Mattoso 1, seu assessor ordenou a devassa na conta do caseiro e o sigilo acaba de vazar; se sair nesse momento assumindo a responsabilidade, o estrago é pontual (anestesia local). Em Mattoso 2, ele abriu inquérito com 15 dias de prazo para descobrir que ele mesmo está na origem do fato (peridural, com algum risco de seqüelas). Em Mattoso 3, dez dias depois ele foi à polícia e entregou todo mundo (anestesia geral, com risco ponderável de septicemia, morte ou invalidez).
Escala Palocci: a escala Palocci tem a mesma gradação da Mattoso, mas mede o teor de inverosimilhança das desculpas de seu assessor para livrar-se de acusações. Em Palocci 1, ele chama uma coletiva no domingo, dá um show de bola e acalma o mercado financeiro e os analistas. Em Palocci 2, corrige "a posteriori" desmentidos publicados na imprensa invocando imprecisões terminológicas. Em Palocci 3, silêncio, fuga da imprensa. Jamais deixe seu assessor pular de 2 para 3 (leia verbete "Demissão de assessor 1").
Esperteza: desconfie sempre de que você a domina e não julgue que seu adversário seja desprovido dela. José Serra ficou meses na moita, acalentando a idéia de que seria ungido candidato a presidente pelo PSDB porque, afinal, era o melhor tucano nas pesquisas. "Sábia atitude", pensaram muitos, "tudo o que ele disser agora poderá pesar contra ele, e a estridência do Alckmin é típica de quem está desesperado". Feitas as contas, quem era mesmo o esperto? Serra ficou com o ônus de sair da prefeitura (fez justamente o que os alckmistas diziam que ele não deveria fazer, pois deporia contra uma palavra empenhada e poria em risco o partido), mas o candidato ao Planalto continua sendo Alckmin. Se fosse para renunciar, por que Serra não aceitou disputar as prévias com o governador?
Garçonnière: evite mansões freqüentadas por muita gente. Dê preferência a locais reservados, em diferentes pontos da cidade ou do país. Não deixe o assunto, muito menos sua logística, nas mãos de mais de um assessor, de preferência alguém do tipo que seqüestraria a própria mãe por você. Não misture esse aspecto de sua carreira com outros ramos de negócios.
Idéias geniais para sair de crises: afora o suicídio, que tem algum custo, elas não existem. O melhor que você faz é asfixiá-las todas no ninho. Alguém bastante graduado no governo Lula, mas que não sabia da missa a metade, achou que revelar ao público depósitos suspeitos na conta do caseiro Francenido fosse virar o jogo em um repente. Não cometa idiotice desse nível, pois é fatal.
Investigar: conjugue o verbo em todas as flexões. Se há uma acusação contra seu governo, à primeira indagação diga que deu ordens expressas a seus assessores para apurar tudo, até as últimas conseqüências. Não faça como Alckmin, que passou pelo constrangimento de ter sido lembrado em público pelo presidente de seu partido dessa necessidade retórica.
Primeira-dama: cuidado com ela! Tão logo você assume e vai cuidar das chatices do dia-dia, um enxame de estilistas, esteticistas, cabeleireiros, joalheiros etc. ataca a sua mulher. São bastante solícitos, se recusam a cobrar por seus mimos e, infelizmente, ela é presa fácil. Escale um bedel para conter esse assédio e/ou agregue à rotina semanal, registrada em agenda, uma checagem minuciosa do guarda-roupas, do cabelo, da maquiagem e dos acessórios dela. A vantagem adicional dessa abordagem é que a primeira-dama tende a sentir-se lisonjeada com tamanha atenção a sua pessoa.
Promessa por escrito: não faça como José Serra nem Antonio Palocci; nunca assine documento dizendo que se compromete a cumprir o mandato até o fim caso seja eleito; indagado, restrinja-se a afirmar que completar os quatro anos é a sua intenção sincera, pois sua vocação maior na política é servir ao povo, e mude logo de assunto.
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Vinicius Mota, 33, é editor de Opinião da Folha (coordenador dos editoriais). Foi também editor do caderno Mundo e secretário-assistente de Redação da Folha. Escreve para a Folha Online aos domingos. E-mail: vinicius.mota@folha.com.br |

